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Relembrando a Guerra Russo-Turca de 1877 e a perda otomana dos Balcãs

Em 24 de abril de 1877, começou a Guerra Russo-Turca, que resultou em sucessivas derrotas do Império Otomano e uma onda de independência nos Balcãs

O que: Avanço russo sobre territórios do Império Otomano, dando início à Guerra Russo-Turca e uma onda de independência nos Balcãs

Onde: Balcãs, sudeste da Europa

Quando: 24 de abril de 1877 – 3 de março de 1878

A segunda metade do século XIX foi um período de crescente nacionalismo em todo o mundo e as comunidades nos territórios controlados pelo Império Otomano decerto não foram exceção. Na década de 1870, os Balcãs estavam repletos de sentimentos nacionalistas e separatistas, o que resultou em numerosas revoltas em áreas como Albânia, Bulgária, Herzegovina e Creta.

Embora consideravelmente bem-sucedido em navegar pela complexa geopolítica da Europa até então, ao gerenciar alianças em constante mudança e traições de grandes e pequenos poderes, os otomanos se viram sujeitos a um descontentamento cada vez mais maior tanto das nações  que governavam quanto do continente como um todo.

A Rússia czarista era, na época, uma das potências mais desgostosas com o Império Otomano, após perder alguns territórios na Guerra da Crimeia, cerca de duas décadas antes, pelas mãos da coalizão turca, britânica e francesa. Essa derrota, juntamente com promessas para proteger populações cristãs que viviam em terras otomanas, levou Moscou a planejar uma nova ofensiva contra seu adversário imperial.

Após chegar a um acordo com a Áustria-Hungria em 15 de janeiro de 1877, para assegurar a neutralidade desta em caso de conflito, além de assinar um tratado com a Romênia, com intuito de permitir salvo-conduto de tropas russas por seu território, sob a condição de respeitar sua soberania, a Rússia julgou que era o momento certo para enfim declarar guerra. Suas tropas entraram na Romênia em 24 de abril de 1877, acompanhadas por 120 mil soldados romenos, iniciando a invasão sobre o que era formalmente então parte do território otomano.

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Em 10 de maio, a Romênia declarou sua independência, enquanto batalhões russos e romenos  capturavam locais estratégicos das forças otomanas no país e também na Bulgária. Apesar de Istambul ter ordenado seu célebre comandante, Osman Nuri Pasha, a marchar rumo à Bulgária, na tentativa de deter o avanço russo, ele e seu exército foram cercados na cidade fortificada de Pleven, à medida que os próprios búlgaros se juntavam à luta pela independência.

Cinco meses depois, o cerco de Pleven foi rompido e Pasha se rendeu à coalizão militar, que se fortaleceu ainda mais quando a Sérvia se juntou aos esforços de guerra, ao capturar extensões substanciais do território otomano.

A Grã-Bretanha pressionou a Rússia a aceitar um armistício em 31 de janeiro de 1878, ao ver com maus olhos uma vitória completa de Moscou e a expansão considerável de sua zona de influência. As forças turcas eram pouco a pouco empurradas de volta a Istambul. No entanto, a Marinha Real Britânica enviou navios de guerra para intimidar a Rússia a assinar um um tratado de paz em 3 de março de 1878, na vila de San Stefano.

Sob o acordo, o Império Otomano aceitou a independência da Romênia, Sérvia e Montenegro, bem como a autonomia da Bósnia e Herzegovina e partes da Bulgária, encerrando efetivamente cerca de cinco séculos de domínio nos Balcãs.

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 O que aconteceu a seguir?

Com o cessar-fogo, o Império Otomano se viu forçado a aceitar a independência ou autonomia de seus antigos territórios nos Balcãs e no leste da Anatólia, onde outra frente foi disputada com a Rússia. A dinâmica geopolítica de toda a região mudou para sempre e uma nova era da história de fato começou.

A guerra foi, em diversos sentidos, o começo do colapso físico do Império Otomano, enquanto um novo sistema de estados-nação – adotado até hoje – se consolidava em toda a parte. Outras potências europeias solidificavam gradualmente seu domínio colonial sobre partes da Ásia e da África, mas encontrariam a mesma realidade no século seguinte, em meio a uma onda de lutas anticoloniais. Não obstante, foram os otomanos os primeiros a experimentá-la.

Com essa nova era, outras questões emergiram, como a radicalização das identidades étnicas, incluindo o nascimento de uma identidade nacional turca; as migrações de massa, como a troca entre Turquia e Grécia; e os sucessivos episódios de limpeza étnica e religiosa, como vivenciado nos Balcãs durante a dissolução da Iugoslávia.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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