Mochilão MEMO: Turquia, Taksim, após o atentado terrorista

Em novembro do ano passado, um ataque a bomba ceifou a vida de seis pessoas e deixou mais de oitenta feridos em uma das ruas mais movimentadas de Istambul. Poucos meses após o atentado, lá estávamos nós caminhando pela rua Istiklal.

Estamos hospedados no bairro genovês de Karakoy, onde se situa a Torre de Gálata e a maior concentração de turistas em Istambul. A rua Istiklal liga nosso bairro à praça Taksim, no bairro de Beyoglu. Confesso que esperava encontrar o lugar vazio, devido ao ataque; ao contrário, estava lotado de turcos e turistas, subindo e descendo a rua.

Infelizmente, não foi a primeira vez que um ataque como esse aconteceu por aqui. Em 2010, um terrorista suicida do grupo Falcões da Liberdade do Curdistão (TAK) explodiu-se ao lado de um ônibus da polícia, ferindo 15 policiais e 17 civis. Outro atentado ocorreu em março de 2016: um homem-bomba matou diversos turistas na mesma rua – ataque então reivindicado pelo grupo fundamentalista Estado Islâmico (Daesh).

É complicado entender ou falar sobre terrorismo de maneira tão superficial, visto que existe muito preconceito e desinformação sobre o assunto. Vale ressaltar que Estado Islâmico é uma organização terrorista que não representa os muçulmanos do Oriente Médio. O grupo apenas se apropriou do termo “islâmico” como pretexto, exatamente como terroristas bolsonaristas se autoproclamam “patriotas” para atacar a democracia brasileira. Terrorismo e islamismo não são sinônimos, muito pelo contrário. Os turcos, majoritariamente muçulmanos, se orgulham e insistem em manter e cobrar que o regime seja laico e secular.

Cito um exemplo: logo ao chegarmos na praça, demos de frente com a Mesquita Taksim, inaugurada em 2021, em cerimônia que contou com a presença do presidente Recep Tayyip Erdorgan. O plano de construção do complexo religioso foi pauta de discussão desde a década de 1950. Várias vezes o projeto foi abandonado: turcos, mesmo muçulmanos, se opunham à construção devido ao fato de a praça Taksim ser intimamente ligada à história de republicanismo e secularismo na Turquia. No entanto, o Conselho de Preservação de Monumentos Culturais eventualmente venceu a disputa; em 2017, a obra teve início.

A Mesquita Taksim não foi a única a tentar ser barrada pela vontade popular: a construção da Mesquita de Çamlica, no lado asiático da cidade, teve uma história parecida, concluída apenas em 2019, para então se tornar a maior mesquita do país.

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Voltando aos atentados terroristas, uma onda de ataques abalou as metrópoles nacionais entre 2015 e 2017, causando mais de 500 mortes. Em 2015, um carro-bomba explodiu nas ruas da capital Ancara; em 2016, foi a vez do aeroporto internacional de Istambul. Na mesma cidade, durante uma festa no réveillon de 2017, uma bomba explodiu em uma discoteca.

Esperávamos que o ataque de novembro tivesse espantado os turistas ou, no mínimo, incitado maior controle da polícia em áreas não-islâmicas, como a Igreja de Santo Antônio. Contudo, a vida segue como se nada tivesse acontecido. Havia de fato certo contingente policial, mas nada que espantasse a dois brasileiros.

Dias após o atentado, as autoridades turcas prenderam uma mulher e outros suspeitos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – designado “terrorista” pelo regime turco. Autoridades proibiram, porém, a publicação de imagens e artigos sobre o assunto e limitaram a banda das redes sociais para “impedir a propagação de imagens chocantes e de informação falsa”. Erdogan prometeu “punir os responsáveis”. Não obstante, Istikal e Taksim contam com vasto aparato de vigilância e força policial 24 horas e encontrar os suspeitos não foi nada difícil.

Andar pela área me fez pensar na maneira com que o governo brasileiro tem tratado terroristas bolsonaristas. Toda pessoa tem direito a liberdade de reunião e associação pacífica, de acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Evidentemente, isso não se aplica aos atentados em Brasília.

Antes de viajar à Turquia, lembro de ter visto o atual Ministro da Justiça Flávio Dino afirmar em entrevista que defende o direito à manifestação de apoiadores do ex-presidente, Jair Bolsonaro, mas que ataques contra a democracia seriam tratados com seriedade. Na Turquia, porém, não existe essa distinção: manifestantes pacíficos são tratados como terroristas e vice-versa. A força policial instalada em Taksim não serve apenas para prevenir o terrorismo; serve para dissuadir qualquer tipo de manifestação popular. Erdogan e seu gabinete foram criticados várias vezes pelo uso excessivo da força e violência contra manifestantes pacíficos – quem dirá aqueles que cometem atentados terroristas.

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Na primeira postagem sobre essa viagem – Nossas próprias bombas –, falamos um pouco sobre como nós, ocidentais, olhamos para incidentes no Oriente Médio enquanto minimizamos a periculosidade de nossos próprios terroristas. Olhando para a maneira com que o governo turco atua no combate ao terrorismo e como o governo brasileiro tem atuado – e como ambos reagem as manifestações populares –, podemos dizer que, neste quesito, o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva, seu ministro Dino e outras autoridades relevantes dão exemplo de aplicação da lei e da ordem sem ferir os direitos humanos – mesmos daqueles que apoiam a ditadura, exaltam a tortura e outras barbáries.

Se os presos da Papuda e Colmeia soubessem um pouco sobre a diferença entre terrorismo e direito de associação pacífica e como é distinta a abordagem do Brasil e da Turquia, em seus respectivos cenários, estariam todos gratos por estarem detidos sob um governo democrata de esquerda, que respeita seus direitos humanos.

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Nota: Todos os textos do Mochilão MEMO são produzidos em trânsito; por gentileza, peço que compreenda que pode haver falhas ou erros que serão corrigidos ao longo da viagem. Obrigado a todos pela compreensão.

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