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Adham Al-Hajjar, quatro anos de espera

Entrevista com o jornalista palestino baleado com balas expansivas durante a Marcha do Retorno
Adham Al-Hajjar [Arquivo pessoal/Cortesia]
Adham Al-Hajjar, em 02 de abril de 2022 [Arquivo pessoal/Cortesia]

No dia 6 de abril de 2018, durante os protestos da  Grande Marcha de Retorno à Gaza, o jornalista Adham al Hajjar foi baleado por uma munição de uso proibido (mesmo  em condições de guerra), mas que pode ser adquirida por  até 3 dólares. Naquele dia, Adham usava capacete e colete a  prova de balas com as inscrições “PRESS”.

Adham continua aguardando autorização do Governo  israelense para poder sair de Gaza em busca de um tratamento  que traga de volta a funcionalidade de sua perna e amenize suas  dores. Nesta entrevista ao Monitor do Oriente Médio, Adham recorda o dia do ataque e diz que a única coisa que ele tem feito nesses quatro anos é  “ter calma e esperar”.   A entrevista foi traduzida por  Jehad Afaghani

Como foi o dia do ataque? 

Assim que cheguei onde estavam os manifestantes, vi  um deficiente palestino agarrando o portão de um checkpoint  como se quisesse arrancá-lo com as próprias mãos. Antes de tirar a máquina da bolsa, caí no chão. A dor e o impacto foram tão  fortes que pensei que tinha perdido a perna. A bala entrou entre  os ossos e rompeu todos os tendões e a musculatura. Desmaiei  de dor, só acordei na ambulância, a todo momento eu perguntava aos paramédicos onde estava minha perna, perguntava se  eles pegaram a minha perna, ficava pensando o que seria da minha vida, da minha profissão?

Adham foi ferido por um tiro de munição real. Não é  possível identificar qual a munição foi disparada, ou por qual  arma, entretanto, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) afirmaram  que muitas das feridas tratadas pela organização, possuíam as  mesmas características, em alguns casos a ferida de saída do  projétil era do tamanho de um punho. Marie-Elisabeth Ingres,  chefe de missão do MSF na Palestina disse que “metade dos  mais de 500 pacientes que admitimos em nossas clínicas têm ferimentos em que a bala literalmente destruiu o tecido após pulverizar o osso.”

Patologistas forenses avaliaram fotos dos ferimentos causados em 2018 na Faixa de Gaza. A equipe relatou que muitos dos casos apresentam características de ferimentos por bala  expansiva, mais conhecidas como “ponta oca”. O design dessa  munição permite que a bala alcance maior velocidade em uma  distância relativamente longa além de possuir grande “poder de

parada”, o que causa maior destruição ao alvo e altos índices  de letalidade.

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Durante a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha denunciou o uso de munição expansiva por parte dos britânicos, afirmando que tal munição causava ferimentos desumanos e devastadores. Na Primeira Conferência de Paz de Haia, em 1899, as munições que expandem ou achatam no corpo tiveram seu uso estritamente proibido em casos de guerra.

O governo israelense negou a acusação de uso de balas  expansivas, alegando que sua munição padrão é “Full Metal  Jacket” e que o exército foi obrigado a abrir fogo contra os palestinos como último recurso, agindo conforme os Procedimentos Operacionais Padrão.

O uso de balas expansivas, explica o alto índice de ferimentos graves, amputações e morte, como a do jornalista Yaser  Mutarja, morto dias antes. Mutarja usava capacete e colete a

prova de balas com a inscrição “PRESS”, e mesmo assim a bala  atravessou o colete dilacerado seus órgãos internos.

A que distância da Linha Verde você estava quando foi  baleado? 

Eu sou jornalista, eu tinha o direito de estar lá e trabalhar. Todo jornalista está protegido por leis internacionais. A distância não importa, tanto nós jornalistas como os paramédicos  que estavam lá e também foram baleados, estávamos trabalhando quando fomos atingidos. Quem impõe a fronteira na Palestina são os israelenses. Israel sempre arruma desculpa para

justificar o porquê atira em jornalistas e paramédicos.

Aquela semana foi uma das mais sangrentas desde que  começaram os protestos da Grande Marcha de Retorno, só naquele dia mais de três mil pessoas ficaram feridas, o hospital  para o qual Adham foi levado estava lotado, assim como todos  os outros em Gaza.

Como foi seu atendimento em Gaza? 

Quando cheguei no hospital, os médicos limparam a  minha perna e me colocaram em uma maca, eles disseram que  não poderiam fazer nada, eu teria que aguardar uma equipe de  médicos franceses que estavam para chegar, só eles poderiam  me operar.

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Quanto tempo você esperou até a chegada da equipe  francesa? 

Desde que fui baleado até a chegada da equipe francesa foram três dias, deitado em um colchonete em cima de  uma maca. Foram três dias sentindo muita dor.

Como foi a cirurgia e o tratamento? 

A cirurgia durou oito horas, os médicos cortaram algumas partes e juntaram outras, mas no fim, a cirurgia acabou não  sendo bem sucedida. Fiquei três meses no hospital com a perna  imobilizada em “V” para poder colar. Os médicos me disseram  que não poderiam me ajudar, e era muito difícil conseguir tudo  que precisava para o meu tratamento em Gaza. Depois de três  meses naquela posição, recebi uma visita de outra organização  humanitária. Eles disseram que minha perna não poderia ficar  daquele jeito e que em Gaza não tinham os recursos para me tratar. Os médicos optaram por um tratamento alternativo.

Então, eles amarraram meu tronco na maca, e com um peso começaram a esticar minha perna lentamente, doía muito e isso durou um mês e meio.

Uma ONG internacional conseguiu uma nova cirurgia para Adham no Egito, no entanto, seu tratamento deveria ser  acompanhado posteriormente na Alemanha. No Cairo o jornalista passou por uma cirurgia de enxerto ósseo, a ONG financiadora arcou com os custos hospitalares, enquanto o jornalista e  sua família custeavam as despesas pessoais. Adham passou um  ano e seis meses procurando ajuda financeira, já que a embaixada da Alemanha no Egito lhe disse que só concederia o visto  se o jornalista conseguisse comprovar que tinha o dinheiro para  sua estadia na Europa. Como não conseguiu o dinheiro, o visto  para a Alemanha foi negado e ele voltou para Gaza. A Autoridade Palestina junto ao Sindicato de Jornalistas, conseguiu que Adham fizesse um tratamento na Jordânia, a essa altura ele começou a sentir sua perna paralisada, a cirurgia no Cairo resultou em  uma laceração óssea, deixando ainda pior a situação de sua  perna.

 

Enquanto estava no Egito e na Jordânia em algum momento você pensou em não voltar para Gaza?

Nunca, jamais. A minha vida é Gaza. A minha vida é pegar meu copo de café e sentar para ver o mar, este é o único momento que esqueço um pouco a dor. O tempo que passei fora, eu me sentia como uma experiência médica, cheguei até a brigar com os médicos, eu disse várias vezes “se vocês não podem me ajudar então me mandem de volta para casa.”

Em Gaza, Adham encontrou com um jornalista britânico do The Times que esteve com ele naquele 6 de abril. O britânico perguntou como poderia um jornalista palestino ter sido agredido enquanto os estrangeiros saíram ilesos. Adham respondeu: “você tem um governo que protege os seus direitos como ser humano e como profissional de imprensa, enquanto nós não podemos nem ao menos ter um governo para proteger nossos direitos mais básicos.”

Durante as manifestações daquele ano, Israel matou 189 palestino (somente referente aos protestos em Gaza), 70 morreram com tiros na cabeça. Mais de 23 mil pessoas foram feridas, 6106 por munição real, delas 940 crianças. A comissão da ONU que investigou os acontecimentos, concluiu no ano seguinte que os soldados cometeram crimes de lesa humanidade contra pessoas que não ofereciam riscos reais aos soldados isra elenses.

Do lado israelense, de março à dezembro de 2018, quatro soldados ficaram feridos durante os protestos da Grande Marcha do Retorno e não houve mortos.

“Os soldados israelenses cometeram violações do direito internacional  humanitário e dos direitos humanos. Algumas dessas violações podem  constituir crimes de guerra ou crimes contra a humanidade e devem ser  imediatamente investigadas por Israel. ” Santiago Canton, presidente  da comissão da ONU. 

Adham não é um número em um relatório internacional, ele é uma pessoa. O Governo Sionista não violou um, e sim  vários de seus Direito Humanos, e continua violando toda vez  que o nega direito à saúde.

“Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para  lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à  assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença,  na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda  de meios de subsistência por circunstâncias independentes da  sua vontade.” Artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos  Humanos.  

“Nós palestinos, lutamos pelo mínimo de nossos direitos, nós sa bemos que é impossível conquistar todos, então lutamos pelo mínimo possível.” Foto tirada em Gaza, março de 2022 [Arquivo pessoal/Cortesia]

“Nós palestinos, lutamos pelo mínimo de nossos direitos, nós sa bemos que é impossível conquistar todos, então lutamos pelo mínimo possível.” Foto tirada em Gaza, 2014 [Arquivo pessoal/Cortesia]

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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