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Líderes sionistas rejeitaram milhares de judeus ‘doentes’, afirma nova publicação

Refugiados judeus chegam no porto de Haifa, na Palestina ocupada pelo Reino Unido, em 9 de dezembro de 1946 [PhotoQuest/Getty Images]

Dezenas de milhares de judeus que buscavam asilo na Palestina histórica, ainda sob Mandato Britânico, pagaram o preço pela política migratória dos líderes sionistas de outrora, que decidiram rejeitar pessoas consideradas “doentes” ou “incapazes”.

Detalhes dessa política aterradora — que resultou em milhares de mortos — foram desvelados pelo novo livro de Gur Alroey, professor da Universidade de Haifa, “Terra do Refúgio: Imigração à Terra de Israel, 1919-1927”, publicado em hebraico.

Segundo o jornal israelense Haaretz, que entrevistou o autor, seu texto é repleto de citações que podem surpreender e mesmo escandalizar leitores sionistas.

Colonos sionistas durante o período anterior à criação do Estado de Israel — via limpeza étnica contra os nativos palestinos, em 1948 — orgulhavam-se da alcunha de “pioneiros”. No entanto, a pesquisa de Alroey revela um lado obscuro, que ostracizou outros judeus.

Seus protagonistas não são os imigrantes fortes santificados pela propaganda sionista, mas sim um grupo ainda maior, esquecido ou deliberadamente omitido dos livros de história.

Tratam-se de órfãos e viúvas, sobreviventes dos pogroms e dos levantes no exterior, vítimas de estupro, fome e miséria, entre outras pessoas traumatizadas de corpo e alma.

Alroey observa que a maioria dos imigrantes escolheu a Palestina sob colonização britânica por falta de alternativa ou por idealizarem uma terra de refúgio.

Questionado sobre sua motivação para escrever um livro sobre judeus apagados da narrativa sionista, o professor reiterou que ignorá-los é “um crime contra a verdade histórica … que separa a imigração à Terra de Israel de seu contexto histórico mais abrangente”.

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Com base em documentos empilhados há um século na escrivaninha de Yehoshua Gordon, vice-diretor de imigração para a gestão sionista pré-estatal da Palestina ocupada, a obra expõe a comunicação entre líderes judeus incumbidos de administrar a transição demográfica.

Em certa mensagem, Gordon parece queixar-se a seus superiores: “O número de pessoas com doenças nervosas ou distúrbios mentais é cada vez maior!”

Em seguida, esforços foram feitos para devolver judeus considerados abaixo dos padrões de saúde aos países da Europa, a despeito da eventual perseguição em sua terra.

Em um dos episódios mencionados, um imigrante ameaça suicidar-se, caso repatriado.

Levi Shvueli, chefe do departamento de imigração em Haifa, por exemplo, acusou os emissários sionistas no exterior de “ignorar a qualidade das pessoas enviadas à Terra de Israel ou seu estado de saúde” e reivindicou então “meticulosidade sobre o material humano”.

Chaim Weizmann, primeiro presidente israelense, não somente forneceu instruções a seus oficiais, como buscou persuadir as autoridades britânicas a restringir as cotas de imigração — “um momento fatídico para judeus do Leste Europeu”, reafirma o autor.

O preço da política discriminatória, segundo o professor israelense, foi o assassinato de dezenas de milhares de judeus ucranianos, neste mesmo período.

Alroey expressou surpresa sobre o apagamento do tema, ao descrevê-lo como “uma das mais controversas disputas na história do movimento sionista”.

Conforme o autor, o episódio tornou-se mera nota de rodapé nos livros de história, ao passo que os chamados pioneiros sionistas, ao escolherem entre a sobrevivência de judeus pobres e a construção de seu estado, preferiram flagrantemente o último.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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