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Middle East Near You

“A não ser que o mundo aceite apartheid, limpeza étnica e roubo de território, Israel é inviável, imoral e ilegal”

Ualid Rabah
Presidente da Fepal Ualid Rabah [Arquivo pessoal]

O Ramadã e as procissões islâmicas à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém foram o último gatilho para o Estado israelense iniciar nova onda de ataques com fins de justificar sua agressão e ocupação da Palestina. Quando veio o cessar fogo, em 21 de maio, eram 243 palestinos e 12 israelenses mortos, e episódios marcantes como a destruição do prédio do centro de imprensa de Gaza, derrubado pela artilharia do exército israelense. A narrativa que sugere um conflito simétrico parece morta e é sobre isso que o Correio publicou longa entrevista com Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) e que reproduzimos aqui.

Com um detalhado resgate histórico do projeto de construção da “Grande Israel”, Ualid Rabah é categórico: “o que Israel e sionistas, apoiadores e amigos precisam discutir é: há ou não há apartheid em Israel? Há ou não há experimentos genocidas? Há ou não há limpeza étnica? Há ou não há seis milhões de refugiados palestinos? São seis milhões de terroristas expulsos a partir de 1948? O Hamas existia em 1897, quando o sionismo resolveu iniciar seu projeto colonial na Palestina e que deveria haver limpeza étnica para seu ‘sucesso’?”

Além de explicar como Israel usou da pandemia para promover o que, inequivocamente, chama de limpeza étnica, o presidente da Fepal elenca diversos episódios de sabotagem da vida política, social e religiosa palestina, que teve de cancelar suas eleições legislativas de 22 de maio, o que talvez se repita nas presidenciais de 31 de julho. E ataca não só as alegações como a própria noção de “antissemitismo” atribuída aos críticos do Estado israelense.

“(o termo) Foi criado por europeus, em solo europeu, por europeus não judeus para criminalizar europeus de fé judaica. Que, aliás, não são nem jamais serão semitas. É um termo equivocado cunhado na Europa para designar pessoas de fé judaica (o termo, em sua compreensão ainda vigente, foi cunhado pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1879/1880, e dirigido para designar e criminalizar os professantes do judaísmo na Europa, acusados de culturalmente ‘inferiores’ aos germânicos, e até mesmo de, com seu alegado atraso, prejudicarem o desenvolvimento da civilização ariana ‘superior’). Portanto, falamos de antijudaísmo chamado, a esta altura instrumentalmente, de antissemitismo. Quanto a ser ou não ser semitas, nós é quem somos 100% semitas. Os árabes em geral são 100% semitas. Os judeus em esmagadora maioria não são semitas, a não ser os árabes e palestinos de fé judaica”.

Ualid Rabah ainda lembra que, no plano interno, o chamado “campo da paz” se encontre em seu momento de maior refluxo na sociedade israelenses e faz reflexões sobre se, no fim das contas, tudo o que o mundo vê não era inexorável, considerando-se os objetivos reais do projeto histórico sionista, que jamais aceitou a possibilidade dos dois Estados naquilo que se compreende por Palestina Histórica.

LEIA: “A unidade palestina é fundamental contra a ocupação”

“Se tudo é imaginado como ‘Estado judeu’, como tudo poderia ser diferente do que estamos vendo? O Estado concebido por David Ben Gurion só podia ser um Estado Nação judeu com pureza étnica. Por isso realiza-se a limpeza étnica, para que na pior das hipóteses (ao projeto sionista) fique uma maioria esmagadora judaica. É isso que entra em vigor em 2018 com a aprovação da Lei do Estado-nação Judeu, a partir da qual apenas o judeu é cidadão pleno e o hebraico é a língua nacional única”, resumiu.Depois das longas explanações sobre a história da disputa no território histórico, Rabah sintetiza os pontos essenciais de uma paz justa. “Cessar a ocupação da Palestina; o direito de retorno dos refugiados deve ser respeitado; deve-se permitir a realização do Estado Nacional palestino; deve haver proteção internacional à população palestina; deve haver soberania palestina sobre Jerusalém; os palestinos devem ter direito de guarda de suas fronteiras; os palestinos devem ter direito de ir e vir; e deve acabar o regime de apartheid”.

A entrevista completa com Ualid Rabah pode ser lida a seguir.

No início do mês do Ramadã, uma série de ataques israelenses a procissões de palestinos marcou o início de novo capítulo da agressão a Palestina, num contexto assimétrico tratado como “conflito” pela comunidade internacional. Mas o número de mortes de lado a lado evidencia que tem a força coercitiva e realiza seu projeto de ocupação territorial. Por que isso tudo aconteceu agora?

É sempre importante destacar que a situação na Palestina é de ocupação de todo o território palestino, no qual em parte dele se realiza por autoproclamação o Estado de Israel desde 14 de maio de 1948. Tudo o que se deu desde então foi planejado, no caso, a limpeza étnica da Palestina. Tudo que aconteceu na história desde então fez parte do plano, é seguimento natural. Nos últimos dois, três meses (na verdade desde o início da pandemia) podemos narrar que o processo cumulativo levou a mais ou menos o que vamos falar aqui.

Em abril do ano passado, quando a pandemia começou a se apresentar como realmente perigosa no mundo todo, a situação ficando avassaladora em alguns países, havia poucos casos na Palestina, que numa tentativa de prevenção fez decretos de isolamento social. E havia só uma morte até 11 de abril, de uma mulher de 60 anos numa pequena cidade chamada Tubas; os casos graves ainda eram muito poucos. Essa mulher que morreu tinha parentesco com um dos 60 mil palestinos que trabalham em Israel onde, ao mesmo tempo, a pandemia já cobrara dezenas ou centenas de vidas e o vírus se alastrava muito mais poderosamente. Neste cenário, Israel começou a impor dificuldades às unidades de saúde palestinas, especialmente em Jerusalém Oriental, considerada a Jerusalém ocupada de acordo com o Direito Internacional.

Nesta localidade, temos uma concentração muito grande de judeus ultraortodoxos, que estavam inclusive criando muitas dificuldades para o Estado israelense, ao se negarem a reconhecer a pandemia e, em decorrência automática, também a cumprirem todas as medidas protetivas contra o vírus, como isolamento, uso de máscaras, higienização etc. Ao mesmo tempo, infelizmente, crescia uma conduta agressiva frente aos palestinos. Portanto, ao passo que as autoridades de ocupação impediam o atendimento a palestinos, especialmente em Jerusalém Oriental e Hebron, na Cisjordânia, onde, curiosamente, se viam judeus ortodoxos cuspirem em palestinos com fins de contaminá-los, inclusive pensando que eles, por algum motivo, não o seriam. É neste contexto que se alastra o vírus, ainda que não signifique que não fosse se alastrar, tal como se deu no mundo todo. Entretanto, as medidas palestinas de contenção do vírus foram sabotadas por Israel.

Neste período, começa a surgir a hipótese da vacina e sua perspectiva. O que faz Israel? Eles resolvem dizer que vão importar vacina pra sua população. A OMS e a comunidade internacional dizem que o país deve vacinar a população palestina, que está sob sua responsabilidade. Isso porque segundo a legislação internacional e a 4ª Convenção de Genebra, a potência ocupante se responsabiliza pela população ocupada, o que inclui cuidados sanitários. Até porque, como potência ocupante, gestiona o território, diz quem entra e sai, escolhe quais israelenses, mesmo contaminados, podem entrar em território palestino etc. Israel diz que não, diz que é encargo da Autoridade Palestina, ao passo que nega seu direito à soberania, a governo próprio etc. Claro que não há respaldo algum na legislação internacional para esta atitude de Israel.

A certa altura, também diz que não tinha vacina para os palestinos. Quando começam a chegar vacinas doadas diretamente aos palestinos, Israel começa a dificultar o desembaraço aduaneiro. Ao permitir a entrada das poucas doses doadas (neste caso, pela Rússia), destinadas aos profissionais de saúde palestinos da linha de frente de combate à pandemia, dificulta sua liberação. Depois, dificulta-se o transporte, como exemplifica o bloqueio de 2 mil doses para profissionais de saúde em Gaza (doadas pela Rússia, que doou também para a Cisjordânia), que durou 48 horas e só foi resolvido quando a comunidade internacional se mexeu. No entanto, agências de notícias internacionais informam que este Estado (de Israel) descartou doses de vacina que venceram, enquanto doou vacinas para quatro países: Honduras, República Tcheca, Guatemala e Honduras, com a contrapartida de esses países reconhecerem Jerusalém como capital exclusiva de Israel e mudarem para lá suas embaixadas. Em suma, poucas vezes na história vimos qualquer tipo de governo ser tão baixo. Isso tudo já foi um foco grande de descontentamento.

Em setembro do ano passado, num grande encontro entre todas as forças políticas palestinas, chegou-se a um acordo de reconciliação nacional e de convocação de eleições, para possivelmente se construir um governo de unidade nacional. Deliberou-se que se coordenariam todas as forças para uma resistência popular contra a ocupação israelense. Isso tudo caminhou relativamente bem, até o ponto de se convocarem as eleições. Eleições legislativas para renovar os 132 assentos em 22 de maio; eleições para a presidência em 31 de julho; e eleições para o Conselho Nacional Palestino, que tem mais de 765 assentos, mas agora será reduzido para, segundo informações, 350. O Conselho é a principal instância da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), para a qual se elegem até representantes da diáspora (seriam 200 cadeiras aos palestinos que vivem no exterior, perto de 7 milhões, dos quais 6,2 milhões nos países árabes, quase todos refugiados), inclusive no Brasil.

Tal como nos acordos de Oslo, os residentes em Jerusalém também votam. Nas últimas eleições, 6000 votaram em Jerusalém pelo correio e a maior parte em urnas de distritos da cidade, organizadas pela Autoridade Nacional Palestina (ANP). Em 2006, estavam em condições de votar ao redor de 145.000 palestinos residentes em Jerusalém, dos quais perto de 119.000 se cadastraram. Nas eleições deste ano, Israel impediu os trabalhos da comissão central eleitoral palestina em Jerusalém, impediu campanha dos candidatos das 37 listas e, automaticamente, impediu que houvesse votação. E não é possível realizar eleições na Palestina sem Jerusalém, pois isso significa que os palestinos estariam cedendo Jerusalém, abrindo mão da soberania sobre a cidade, tal como pretende, planeja e age para tal o Estado israelense. Além disso, em Jerusalém Oriental e seus distritos (ou subúrbios), vivem quase 470.000 mil palestinos, que seriam descartados enquanto população palestina caso se aceitasse realizar eleições abrindo mão de suas representações, de realização de suas vontades no seio da construção do futuro da Palestina. Em virtude disso, as eleições legislativas de 22 de maio foram canceladas.

A pandemia se tornou ferramenta de inauguração de uma nova etapa de agressão e sabotagem à vida dos palestinos, portanto.

Depois, ainda teríamos mais três episódios. Em abril, começou o mês sagrado do Ramadã, quando mais de 1,5 bilhão de muçulmanos jejuam todos os dias, do nascer ao por do sol. Israel bloqueou o portão de Damasco, que dá acesso à Esplanada das Mesquitas, do que decorreram grandes manifestações populares reprimidas com muita violência. Depois de vários dias de repressão, Israel reabre este portão. Tudo absolutamente desnecessário, a não ser que imaginemos aquilo que direi adiante.

No dia 2, os palestinos cristãos faziam procissão à Igreja do Santo Sepulcro, a mais sagrada do cristianismo, onde está o túmulo de Jesus Cristo, para uma cerimônia pascal, a cerimônia do fogo sagrado. Foram violentamente atacados tanto por forças oficiais (de ocupação) como colonos (estrangeiros de fé judaica, não raro recém-chegados). A procissão foi impedida, o acesso ao Santo Sepulcro foi vetado e a cerimônia não ocorreu. Na última sexta-feira sagrada do Ramadã, em 7 de maio, colonos e extremistas invadem a Esplanada das Mesquitas, além de outras mesquitas e igrejas, e começa uma série de depredações, tanto em Jerusalém como adjacências. Há um confronto e as forças de ocupação entram em cena pra agredir os fieis palestinos. Desata-se o caos e começam grandes manifestações em Jerusalém, que acabam com outro ingrediente explosivo.

Num bairro chamado Sheikh Jarrah (fica no Monte Scopus e leva esse nome porque ali está enterrado Sheikh Jarrah, médico de Saladino, libertador de Jerusalém do domínio cruzado em 1187), localizado no limite entre Jerusalém Oriental e Jerusalém Ocidental, onde residem muitas famílias palestinas, mas em especial 28 famílias, que foram desalojadas por Israel no processo de limpeza étnica iniciado em 1948, portanto, famílias refugiadas, que ali se instalam a partir de 1956. Sete dessas famílias receberam ordem judicial israelense de despejo (três já despejadas) – o que por si só é ilegal, pois é proibido aplicar jurisdição de potência ocupante sobre território de população ocupada –, a pretexto de que colonos – inclusive vindo dos EUA – compraram tais propriedades, apresentando seus títulos sabe-se lá de onde e obtendo título de propriedade por parte do Estado de Israel. Com isso, colocam-se estrangeiros judeus nos lugares das famílias palestinas. É um processo continuado de limpeza étnica. Processo premeditado, calculado, metódico de limpeza étnica da Palestina, que se agudiza em Jerusalém, no sentido de integralização da sua judaização, que significa despalestinização, descristianização e desislamização.

Este processo todo que levou ao conjunto de atividades e manifestações de protestos, todos, ressalte-se, populares e desarmados, reprimidos brutalmente por forças de ocupação auxiliadas por grupos de judeus extremistas. Esta é a moldura geral dos últimos acontecimentos que, claro, estão numa moldura maior, que é a da limpeza étnica da Palestina para sua integral tomada.

Já que você falou do processo continuado de limpeza étnica, ou de “desarabização”, como enfatiza o historiador israelense Ilan Pappe em seu livro A Limpeza Étnica da Palestina, inclusive tendo como fonte para o termo os próprios diários de David Ben Gurion, o que pensa das alegações contra o Hamas? Afinal, não é uma desculpa frouxa demais para evitar que se cumpra aquilo que foi delineado em 1948 e reforçado em 1967, isto é, a Partilha da Palestina?

É a desculpa de sempre do colonialismo. Porque é diante disso que estamos: um projeto colonial tardio promovido por estrangeiros eurojudeus na Palestina. Sempre foi característica dos colonizadores culpar as populações colonizadas. O Nelson Mandela era terrorista: 26 anos preso. Arafat era, idem, terrorista. A OLP era terrorista: mesmo tratamento.

O que Israel e sionistas, apoiadores e amigos precisam discutir é: há ou não há apartheid em Israel? Há ou não há experimentos genocidas? Há ou não há limpeza étnica? Há ou não há seis milhões de refugiados palestinos? São seis milhões de terroristas expulsos a partir de 1948? O Hamas existia em 1897, quando o sionismo resolveu iniciar seu projeto colonial na Palestina e que deveria haver limpeza étnica para seu “sucesso”? E quando Theodor Herzl (fundador do sionismo) disse naquele momento, no final do século 19, que a Palestina era “uma terra sem povo”, mesmo tendo 28,7 habitantes por km², de acordo com senso britânico de 1922, época em que no Brasil a densidade era inferior a 4 e a China, já o país mais populoso do mundo, tinha no máximo 40 habitantes por km²? Existia Hamas ou OLP ou Arafat na época? Em 1948, quando realizam a limpeza étnica da Palestina, existiam Hamas, OLP, Arafat, Al Fatah? Em 1967, essas forças estavam no terreno? Em 1982, quando invadem o Líbano e promovem o genocídio de Sabra e Chatila, qual era o grupo “terrorista” que se combatia?

O que Israel precisa discutir é outra coisa: não é Telavive que está sitiada e atacada. É a Faixa de Gaza. E, diga-se, quase 70% de sua população é refugiada de 1948 e, em menor medida de 1967. É Gaza que está sitiada, desde 2007, frequentemente atacada por aviões e todo tipo de artilharia. Os seis milhões de refugiados palestinos são palestinos; não são israelenses, não são judeus. O que eles querem esconder? Israel quer se eximir dos crimes de guerra e lesa-humanidade que comete na Palestina e são investigados pelo Tribunal Penal Internacional. Os relatórios da B’Tselem, maior ONG de Direitos Humanos de Israel, e também da Human Rights Watch, dizem que há apartheid em todo o terreno da Palestina histórica. É ou não é terrorismo, inclusive de Estado? É sobre isso que Israel precisa falar.

E que pensa da retórica sionista, que acusa de antissemita, aparentemente com cada vez mais frequência, qualquer crítica aos atos do Estado de Israel? Diante dos aliados internacionais cada vez mais à direita, esse não é um argumento um tanto frágil?

Primeiramente, este alegado antissemitismo trata de um fenômeno criado por europeus. Foi criado por europeus, em solo europeu, por europeus não judeus para criminalizar europeus de fé judaica. Que, aliás, não são nem jamais serão semitas. É um termo equivocado cunhado na Europa para designar pessoas de fé judaica (o termo, em sua compreensão ainda vigente, foi cunhado pelo jornalista alemão Wilhelm Marr, em 1879/1880, e dirigido para designar e criminalizar os professantes do judaísmo na Europa, acusados de culturalmente “inferiores” aos germânicos e, até mesmo, de, com seu alegado atraso, prejudicarem o desenvolvimento da civilização ariana “superior”). Portanto, falamos de antijudaísmo chamado, a esta altura instrumentalmente, de antissemitismo. Quanto a ser ou não ser semitas, nós é quem somos 100% semitas. Os árabes em geral são 100% semitas. Os judeus em esmagadora maioria não são semitas, a não ser os árabes e palestinos de fé judaica.

O segundo ponto é que a luta por libertação, autodeterminação, por um Estado Nacional soberano dos palestinos é a luta contra a ocupação, o apartheid, o projeto colonial. Não é uma luta contra a fé judaica, o que seria antijudaísmo, e, evidentemente, não é uma causa racial, é uma causa de libertação nacional.

No entanto, é evidente que Israel se acostumou, pois os sionistas perderam toda a capacidade de dignidade humana, o caráter e a decência, a usar esta moeda política, que é um achaque moral. Tudo que diz respeito à condenação do apartheid e aos crimes de guerra de Israel virou antissemitismo. Porque eles não têm como se defender, não têm como negar os crimes. Assim, usam da chantagem retórica do antissemitismo. Seria o mesmo que acusar de antibranco quem denunciava o apartheid da África do Sul, de antigermânico quem atacasse a Alemanha nazista… É uma chantagem anticientífica e imoral.

Eles podem procurar antissemitismo naqueles que os apoiam: na Hungria governada pela extrema-direita; aqui no Brasil na extrema-direita quase nazista, que são também enrustidos antijudeus, nos europeus de extrema-direita, como a Marine Le Pen, que pratica antijudaísmo declarado, mas apoia Israel…

Por fim, eles que nos tragam informações sobre o antijudaísmo no amplo mundo árabe e islâmico até a fundação do Estado de Israel. Isso é um fenômeno exclusivamente europeu (principalmente ocidental), “cristão” e branco, ocorrido em lugares onde havia europeus de fé judaica.

Pra completar, é bom dizer que nada disso, isto é, o antijudaísmo, estaria ocorrendo se não fossem os crimes de Israel. É Israel e sua conduta que levam à ressurreição deste sentimento. Israel fez do judaísmo sua justificativa de existência e justificativa para seus crimes, para sua ideia de supremacia, para um regime de apartheid etc. É culpa de Israel o alegado – apesar da incorreta definição – “antissemitismo”.

Como vê a formação do novo governo após fracasso da coalizão de Bibi Netanyahu com o general Benny Gantz? O que esperar dessa tênue maioria e como deve influir na relação com a causa da independência palestina?

Existe uma esperança quase mitológica de que, a partir do que as elites israelenses resolverem, alguma coisa boa pode acontecer no mundo, especialmente na Palestina. Assim, me parece, grosso modo, que quase esquecemos de fazer uma análise histórica. Hoje, o discurso sionista e de parte dos apoiadores de Israel, envergonhados ou não, é de que Israel não é o problema, mas sim Netanyahu. O problema seria de uma extrema-direita que governa o país e atrapalha tudo. Fora que haveria extremistas palestinos, que igualariam tudo e fim de papo.

Primeiramente, foi a esquerda israelense que promoveu a limpeza étnica da Palestina. Ben Gurion era de esquerda e se autoproclamava socialista. Todos os kibutzim na Palestina, inaugurados a pretexto de um romantismo socialista, se serviram da limpeza étnica. Não há um kibutz que não tenha sido feito em cima do processo colonial. A direita israelense só chegou ao poder em 1977, com Menachem Beguin, justamente com o Likud, na época uma coligação, hoje um partido, pelo qual se elegeria Netanyahu. Daí em diante, esquerda e direita se revezaram, sem que nenhuma delas tenha avançado para além dos Acordos de Oslo, enquanto assinatura dos princípios, de 1993, firmado, pelo lado israelense, por Yitzhak Rabin, por sinal assassinado logo depois (4 de novembro de 1995, em Telavive) pelos próprios israelenses.

Nesse momento, falamos da nova tentativa, articulação, de uma nova aliança. O partido do Yair Lapid (Yesh Atid) tem 17 cadeiras, é tido como de centro, mas é a favor da colonização da Palestina e nunca disse um ‘a’ em favor dos acordos. Outro líder do momento, Naftali Bennet, do Nova Direita, com 7 membros, se opõe abertamente à implementação do Estado da Palestina, defende a colonização; militarista e apoiado pela extrema-direita, inclusive se vangloriando de estar à direita de Netanyahu. E foi ele quem conseguiu agora a cadeira de primeiro ministro, na qual estará pelos próximos dois anos. É curioso neste caso que ele também é imigrante, seus pais vieram dos EUA e é estrangeiro, como todos eles praticamente. Foi presidente da associação de colonos judeus na Cisjordânia (Conselho de Yesha, que inclusive defende a expulsão de todos os palestinos da Cisjordânia e sua anexação) e sempre disse que, em sua política, não cederia “um só centímetro de terra aos palestinos”. Esses são os dois grandes homens da coligação. Enfim, são os arranjos internos israelenses.

O que pode acontecer, e que talvez a pressão internacional signifique em relação a Netanyahu, é incógnita ainda. O quanto, principalmente em relação aos EUA, isso ajudará nas negociações é uma incógnita. A saída de Netanyahu não significa que da noite para o dia a situação melhore. É a resistência palestina, sua busca por unidade interna e a pressão internacional sobre Israel que podem resultar em alguma saída para a Palestina.

Ainda é possível sustentar que Israel no fundo não vise à destruição definitiva da possibilidade dos dois Estados através da criação do fato consumado? Não é a única análise séria a ser feita sobre sua posição?

Ualid Rabah: Há indicações bem claras disso. Do início dos anos 90, até dos anos 80, pra cá, senão de 1967 ou 1973 (chamadas, respectivamente, Guerra dos Seis Dias e Guerra do Yom Kippur) temos a menor proporção do chamado “campo da paz” em Israel. Hoje ele é muito pequeno. Isso não quer dizer que não possa mudar e voltar a crescer, não quer dizer que o cidadão médio não canse de estar a serviço de um regime opressivo, colonial, de limpeza étnica. Não quer dizer que daqui a pouco não venha a dizer ‘não’ para este processo genocida. Mas agora, infelizmente, o campo da paz em Israel é mínimo. Pode crescer, as pressões internacionais podem mudar. Até os extremistas judeus, que hoje predominam na manifestação pública da vontade israelense, podem vir a ser obrigados a uma reflexão.

Foi a pressão internacional que levou o apartheid a acabar na África do Sul. Não foi a vontade tranquila dos bôeres, do Frederick de Klerk ou Pieter Botha. É possível que isso aconteça na Palestina. Não será de presente das elites que atualmente formam o governo de coalizão de Israel.

Grosso modo, Israel é um Estado secular fundado sobre bases religiosas. Dessa forma, o horizonte histórico do autodeclarado “Estado judeu” pode escapar do racismo, do sectarismo, fundamentalismo etc.?

O grande problema é que no nascimento do sionismo, quando começa a tomar características de movimento nacional entre europeus de fé judaica, imagina-se a hipótese de construir um Estado Nacional judeu. Mas não havia como conseguir isso na Europa. O jeito era buscar “fora”. Entre aspas porque tinha de estar acoplado a um projeto colonial europeu daquele momento, de alguma potência colonial europeia de então. Por volta de 1907 a Inglaterra já imagina um Estado tampão na Palestina para controlar o Oriente Médio e o petróleo. É uma área relativamente plana, que permitiria à infantaria britânica já estacionada ou trazida por seus navios ir direto ao Golfo Pérsico para preservar seu petróleo, sem precisar passar por Suez, entrar no Mar Arábico etc.

Terminada a Primeira Guerra Mundial, há o acordo secreto entre franceses e ingleses (acordo Sykes-Picot) e há a partilha dos despojos do Império Otomano, um dos derrotados da Primeira Guerra. O estorvo Otomano já não estava ali. Em 1917, os britânicos prometem esta terra, que não era sua, aos judeus europeus. Faz-se a Declaração Balfour, endereçada ao banqueiro inglês judeu Walter Rothschild, liderança da comunidade judaica no Reino Unido e sionista. Era uma declaração, fundamental, de 67 palavras, que dizia: “O Governo de Sua Majestade vê com favorecimento o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e usará seu melhor esforço para facilitar a realização deste objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito o qual possa prejudicar os direitos civil e religioso das comunidades não-judias existentes na Palestina”). Fica claro que direitos nacionais seriam apenas judeus. Isto é, um projeto racista, de supremacia de alguma ordem, neste caso definida pela fé religiosa. É assim que se realiza o projeto.

Entretanto, a mesma declaração deixa claro que não seria permitida limpeza étnica. Diz que seriam “preservados os direitos religiosos e civis daquelas populações” (que nada será feito o qual possa prejudicar os direitos civil e religioso das comunidades não-judias existentes na Palestina”). Pode ser apenas textual, mas se a declaração, a partir de 1922-23, foi transformada pela antiga Liga das Nações em um dos documentos oficiais do mandato do protetorado britânico sobre a Palestina, quer dizer se tratar de um documento de direito internacional, por mais que trate de direitos do opressor, colonial. Portanto, pode ser nulo de pleno direito, pois anula outros direitos ao criar pretensamente um novo por cima do anterior. Mas fundamentalmente era isso: recusava a despovoação da Palestina.

Israel realiza este processo todo a partir da legitimação da Resolução 181. Diz que a Palestina será partilhada para um futuro Estado judeu (já começa errado) e um futuro Estado que eles chamam de árabe, que é a Palestina, repartindo o território. A resolução apenas recomenda a partilha, não cria status; 42,9% da Palestina Histórica para os palestinos, que naquela altura eram “até 75%” de não judeus no território. Por que “até 75%”? Porque os britânicos não contavam os beduínos. Além do mais, inclusive com estes (beduínos), tinham os palestinos até 95% do território. Ao futuro Estado judeu, 56,5%, mesmo representando no máximo 30% da população, com cerca de 5% das terras. Os restantes 0,6% seriam território internacional, Jerusalém basicamente, administrado pela ONU, com seus locais sagrados etc.

A resolução 181 nunca seria implementada, inclusive é suspensa de dezembro de 1947 em diante, porque a comunidade internacional e os países que faziam a recém-formada ONU recebem relatórios secretos sobre grupos terroristas judaicos, compostos de europeus que tinham chegado a partir de 1945, que começavam a atacar grupos de palestinos e populações camponesas, com o fim de desalojá-las. Por este motivo, a resolução não é implementada.

Em 9 de abril de 1948, essas forças sionistas fazem, no que era uma pequena localidade a 5km de Jerusalém hoje ocidental, um ataque de grupos no qual até 300 habitantes de 700 ali residentes são assassinados. Ali começa o Plano Dalet (um dos vários planos de ocupação da Palestina Histórica, documentados pelo próprio Estado israelense), que consistia na máxima tomada de território com o mínimo de permanência de palestinos.

Este processo é massivamente iniciado às 16 horas de 14 de maio de 1948, quando Israel se autoproclama Estado. À meia noite do mesmo dia terminava o mandato de protetorado outorgado aos britânicos pela antiga Liga das Nações. No dia seguinte começa a limpeza étnica em grande escala. De 15 de maio em diante, são invadidas 771 localidades palestinas, das quais 531 são eliminadas e totalmente tomadas. Da noite para o dia mais de 60% da população palestina é expulsa, 15 mil são mortos ao longo de 70 massacres. O autoproclamado Israel toma 76% da Palestina histórica, área dentro da qual mais de 80% da população é expulsa, algo em torno de 750 mil palestinos, daí resultando os atuais 6 milhões de refugiados.

Israel alega que tudo que se deu na Palestina decorreu do ataque que sofreu a partir do momento em que se autodeclarou Estado, em 14 e 15 de maio de 1948. Mentira! Os confrontos, de fato, só se dão a partir de 26 de maio de 1948, isto é, depois de iniciada a limpeza étnica, cujos primeiros elementos se deram em dezembro de 1947. Depois há o teste em 9 de abril de 1948 (Deir Yassin) e, finalmente, a limpeza étnica em grande escala, a partir de 15 de maio de 1948. Logo, quando muito, o que teria havido foi uma tentativa e reação aos crimes de Israel contra a população palestina originária. Ainda neste sentido, cabe derrubar a lenda de que o “pequeno” Israel enfrentou todos os “exércitos” árabes. O que houve foram apenas forças irregulares e voluntárias de seis países, sem aviação (Israel já tinha), que iniciaram com 29.100 homens e chegaram a ter o máximo de 50.500 homens. Mais um detalhe: seu máximo comandante foi o inglês John Bagot Glubb. Já do lado israelense foram forças unificadas e já organizadas como exército, que começou com 29.677 homens e chegou ao teto de 117.500 homens. Ou seja: mais um grosseiro mito.

As questões são: a resolução 181 mandou alterar a demografia da Palestina? Mandou eliminar 531 localidades? Mandou expulsar até 85% da população palestina do autoproclamado Estado de Israel? Tudo isso faz de Israel um Estado ilegal. O enviado da ONU, o conde sueco Folke Bernadotte, verifica que Israel mentia sobre o abandono do povo palestino a pedido de lideranças árabes. São refugiados exilados, expulsos de diversas cidades. Ele pega os testemunhos e faz um relato. Logo, ele é assassinado por bandos terroristas judaicos (17 de setembro de 1948, na parte ocidental de Jerusalém), comandados por Yitzhak Shamir (com Natan Yellin-Mor, Yisrael Eldad), que viria a ser primeiro ministro de Israel (1986/1992). Esses relatórios secretos e o de Bernardotte resultam na resolução 194, de dezembro de 1948, que determina o retorno dos refugiados palestinos e a reparação de suas perdas.

Em 1949 (11 de maio), apenas, Israel é admitido como Estado-membro da ONU, sob cláusula condicionante (único caso até hoje), que trata do acatamento da resolução 194. Mas não é só isso. Israel se autoproclama Estado à base da limpeza étnica e da apropriação de tudo que era palestino: escolas, estradas, bancos, terras produtivas, olivais, criações de cabras, ovelhas, ovinos, indústrias, infraestruturas. Tudo. O PIB palestino foi apropriado da noite para o dia. À luz da resolução 181 tudo isso é ilegal.

Consequentemente, Israel não é ilegal apenas pela sua imoralidade, pela limpeza étnica, pelo crime de genocídio, pelo apartheid. É pária sob qualquer viés imaginado, inclusive pela declaração Balfour, que é adotada como título legal pela antiga Liga das Nações e é clara sobre a preservação da população já estabelecida.

Por fim, se tudo é imaginado como “Estado judeu”, como tudo poderia ser diferente do que estamos vendo? O Estado concebido por David Ben Gurion só podia ser um Estado Nação judeu com pureza étnica. Por isso realiza-se a limpeza étnica, para que na pior das hipóteses (ao projeto sionista) fique uma maioria esmagadora judaica.

É isso que entra em vigor em 2018 com a aprovação da Lei do Estado-nação Judeu, a partir da qual apenas o judeu é cidadão pleno e o hebraico é a língua nacional única. Somente a eventual conversão dos palestinos ao judaísmo poderá levá-los à condição de merecedores de permanecer na terra.

Nada poderia ser diferente, portanto.

Dessa forma, acredita que o Estado de Israel esteja descrevendo uma trajetória autofágica?

Ironia do destino, podemos atribuir duas grandes obras a Israel: 1) a Palestina é o maior campo de concentração jamais imaginado, administrado por judeus; 2) Israel é o maior gueto do mundo, criado pelo sionismo para os judeus. Ironia ou não, é isso.

É viável? Acho que não. O que mais posso dizer? Posso dizer que, a não ser que acreditemos que um Estado de apartheid seja viável, Israel não é viável. A não ser que um Estado de supremacismo seja viável, Israel não o é.

Israel só fez a guerra de agressão de 1967, tal como em 1948, porque não conseguira tomar toda a Palestina. Mas neste caso (1967) não conseguiu expulsar praticamente ninguém. O plano era tomar tudo, inclusive Gaza e Cisjordânia, e já naquele momento despovoar a esmagadora maioria. Como só conseguiram despovoar 76%, e grande parte deste percentual é de população refugiada dentro da Palestina histórica (em Gaza cerca de 70% são refugiados, enquanto de 23% a 25% na Cisjordânia, e o resto basicamente está nas fronteiras, como Líbano, Síria e Jordânia), há hoje um número igual de judeus e não judeus em toda a Palestina (censo recente divulgado pelo Escritório Central de Estatísticas da Palestina já informa que a população não judaica é 200.000 mil maior do que a judaica). Isso quer dizer que, para se tornar uma maioria judaica (“do rio Jordão ao mar, do Sinai à Galileia”) seria necessária uma nova limpeza étnica. Ou a admissão da comunidade internacional e da consciência humana de que um regime genuinamente de apartheid é legítimo, conforme o país (Israel) definiu em 2018.

Se tudo isso for admitido, significa que o Direito Internacional tornará legal o apartheid, o genocídio, a limpeza étnica e a tomada de território pela força, com a construção de Estados Nacionais que expulsem população milenar em favor de estrangeiros que jamais pisaram ali. Teremos, portanto, uma nova fórmula de construção de Estados Nação.

É isso que a comunidade internacional deseja? Se a tudo isso a resposta for não, é evidente que Israel é inviável, imoral e ilegal.

Quais os pontos fundamentais para uma solução justa?

É um conflito muito recente, faz parte da história colonial europeia tardia. Não tem nada a ver com bíblia, Roma, egípcios e cananeus. É de poucas décadas e resulta de tudo que falamos aqui.

Portanto, os pontos centrais são: cessar a ocupação da Palestina; o direito de retorno dos refugiados deve ser respeitado; deve-se permitir a realização do Estado Nacional palestino; deve haver proteção internacional à população palestina; deve haver soberania palestina sobre Jerusalém; os palestinos devem ter direito de guarda de suas fronteiras; os palestinos devem ter direito de ir e vir; e deve acabar o regime de apartheid.

Feito isso, resolve-se a questão palestina. E, mais que isso, os israelenses passam a ter a possibilidade de viver um estado que não seja de guerra e ocupação permanente, que exige protagonismo de toda uma população num processo de genocídio. Só com uma paz justa haverá paz duradoura. Aliás, alguma paz.

Eu diria que a pressão internacional é muito importante, de países, governos, instituições, Estados, organizações internacionais. Se possível, pressão da sociedade civil como em relação ao apartheid da África do Sul. E se possível, a promoção do movimento global BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções). Deu certo na África do Sul, pode dar certo na Palestina. Que as pessoas não deixem de expressar a solidariedade com a Palestina, nas redes sociais e onde quer que seja.

E visitem a Palestina. Lá, poderão ver o que é apartheid e ocupação in loco. Não são palavras. São situações reais. Conhecerão um país muito belo, que tem uma das melhores culinárias (por sinal, barata) e receptividade do mundo. O país é um grande sítio arqueológico, um museu a céu aberto em quase todo o território, onde se encontra tudo que diz respeito ao nascimento da história humana e do monoteísmo.

Entrevista publicada originalmente no Correio da Cidadania

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