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A dor de Soad e o rosto do apartheid

Ativistas palestinos, israelenses e estrangeiros exibem cartazes durante um protesto contra os assentamentos ilegais de Israel nos territórios palestinos ocupados, no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, 19 de março de 2021 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]
Ativistas palestinos, israelenses e estrangeiros exibem cartazes durante um protesto contra os assentamentos ilegais de Israel nos territórios palestinos ocupados, no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém, 19 de março de 2021 [Ahmad Gharabli/AFP/Getty Images]

Meus olhos viram Jerusalém em três estadias diferentes na Cidade Sagrada e em  cada uma delas, a visão da Mesquita de Al Aqsa e da Igreja do Santo Sepulcro me tocavam de uma forma inenarrável. Cidade- mundo.  Cidade -Sagrada para as três religiões monoteístas. Cidade amada  pelos que desejam a coexistência e a paz, mas  sequestrada pelos que constroem  apenas mais  ódio e mais  muros.   Para entender a imensa  dor dos palestinos, a crueldade da Nakba, as mais de 200 mortes dos últimos dias nos bombardeios a Gaza, você  precisa conhecer a história de Jerusalém e, se possível, entrar no coração dela, em Sheikh Jarrar, como fiz na minha última  estadia, em 2017.

Voltemos um pouco no tempo. Jerusalém a cidade onde foi construído, segundo a Bíblia,   há mais dois mil anos, o Templo de Salomão. É da cidade onde, logo depois da conversão do Imperador Constantino ao Cristianismo, foi erguida, em 335 da era cristã,  a  Igreja do Santo Sepulcro, no local exato da crucificação de Jesus. Alguns séculos se passaram até surgir, já no século 7, uma nova religião  monoteísta, com muitos profetas, personagens  e tradições entrelaçadas com  Abraão, Moisés e Jesus. Revelado por Deus ao  profeta Maomé, o  islamismo, com sua  mensagem de busca por conhecimento, direitos fundamentais,. união e solidariedade, acabou crescendo  e ganhando milhões de adeptos já nos primeiros séculos de existência,  unindo diferentes povos   no Oriente Médio, na Espanha  e na Ásia.

Pouco tempo depois, no ano de  638, os  muçulmanos conquistam Jerusalém e vários  territórios que faziam parte do  antigo Império Bizantino, o império cristão do Oriente. Com a  vitória militar dos muçulmanos, que pregavam a paz e a tolerância religiosa, foram promulgadas leis que autorizavam os judeus a regressarem à cidade após os séculos de  Diáspora e que também  protegiam de fato os cristãos da cidade.  Jerusalém passou entao a ser considerada  considerada sagrada para as três religiões abraãmicas e recebendo também o  santuário  islâmico do Domo da Rocha, que se tornou o próprio rosto de Jerusalém para o mundo, com sua fantástica arquitetura árabe e sua  grande cúpula dourada.

Durante séculos, cristãos, muçulmanos e judeus viveram em paz na cidade. Até que, em 1095,  o  Papa Urbano II, apoiado por europeus em busca de dinheiro, terras  e territórios para dominar, começam a alimentar o ódio contra os líderes  muçulmanos  de Jerusalém e a  convocar jovens  europeus pobres para as Cruzadas, uma nova  ” Guerra Santa” para ” retomar condomínio cristão” da cidade sagrada. O Papa Urbano e nobres europeus convencem uma massa cristã pobre, analfabeta, injustiçada e faminta que, se morressem lutando nas Cruzadas, ganhariam um lugar no Céu. . Em 1099, Jerusalém é pelas violentas  tropas levadas pelo Papa Urbano,  que matam milhares de pessoas  violentam mulheres, roubam terras e expulsam os muçulmanos e judeus de Jerusalém.

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Acontecem novas batalhas e a cidade volta ao domínio  muçulmano durante a campanha militar liderada por  Saladino, um comandante respeitado até por seus adversários e amado hoje por cristãos e muçulmanos  por ter salvado a vida de milhares de mulheres e crianças cristãs no final do conflito. Os  judeus, que estavam em número bem menor,  também foram autorizados por Saladimo a voltar para Jerusalém.

Em 1517, o Império Otomano se expande e domina  Jerusalém que o sultão muçulmano  Mehmed II derrota o Império Bizantino em Costantinopla,  atual Istambul.

A paz volta a ter voz por um tempo. Mas os tambores de guerra voltam a soar em Jerusalém com a derrota do Império Otomano durante a I Guerra Mundial . O  Império Britânico toma Jerusalém do Império Otomano em 1917 e a Cidade Sagrada e todo o território da Palestina passa para as mãos da Inglaterra. O resto da História é tristemente conhecido.

É fundado o Sionismo na Europa, um movimento político que deseja fazer da Palestina onde cristãos, judeus e muçulmanos viviam em harmonia,  uma nação apenas para judeus, uma  supremacia judaica,  onde europeus judeus podem viver e  tomar as  terras, destruir  vidas e  casas de palestinos cristãos e muçulmanos que vivem  ali há séculos.

A situação se torna a cada semana mais violenta e a Inglaterra transmite para a Jordânia a administração de Jerusalém, um acordo  que permanece intacto até 1967, quando, durante a Guerra dos Seis Dias, Israel toma ilegalmente o controle de Jerusalém, num ato de guerra jamais reconhecido pelas leis internacionais. Os conflitos aumentam e o processo   limpeza étnica dos palestinos de toda a região se torna cada vez mais violento e incontrolável.

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Fora das muralhas da parte conhecida como  “cidade velha” , fica o bairro chamado  Sheikh Jarrah. Um bairro que me emocionou por sua resistência , por seu simbolismo como  um dos bairros mais  palestinos  de Jerusalém!

Sheikh Jarrah passou a ser,  tristemente,  um  alvo de  colonos e supremacistas  judeus estrangeiros, que muitas vezes chegam dos Estados Unidos ou da Europa  sem nenhuma ligação histórica com Jerusalém e passam a agredir, jogar objetos e ameaçar  famílias palestinas que vivem ali há 70 anos, ou a transformar suas  suas em um inferno de Dante.

O bairro é bonito, próspero e está bem perto da linha  que separa  a Jerusalém Ocidental da Oriental e isso se tornou uma razão ainda maior para os ataques dos supremacistas judeus europeus e anorte- americanos.

As cenas de  violência que eu testemunhei no bairro em 2017 ficarão tatuadas em minha mente para sempre.

Um extremista judeu gritava  palavras horriveis para uma senhora muçulmana que poderia ser sua avó, enquanto outros colonos judeus jogavam lixo perto da entrada de sua casa.

Ela estava sozinha e nós a ajudamos a levar as duas  sacolas de compras para a casa, Eu a abracei  e segurei em  suas mãos trêmulas para tentar ampará- la.

Como eu  me sentiria se minha  avó fosse agredida  por extremistas judeus ( ou cristãos, ou muçulmanos, ou hindus…) e um grupo de supremacistas transformasse a simples ida ao mercado em um suplício e um risco de vida?

Como você se sentiria se sua mãe estivesse sendo expulsa da casa em que você cresceu, não por questões de pagamento de aluguel, mas para entregar a sua casa a extremistas judeus que alegam ter direito a ela porque Deus lhe contou?

Muitas famílias palestinas estão sendo expulsas de suas casas com a ajuda de leis israelenses draconianas, que não seriam aceitas em nenhum lugar do mundo.

A chamada Lei de Propriedade Ausente permite que Israel confisque a casa  de uma família de palestinos que ou fugiram de sua casa para não morrer durante o Massacre de palestinos de 1948, por exemplo.

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Mas quando se trata de cidadãos judeus, o sistema jurídico é outro, e  a Lei de Assuntos Jurídicos e Administrativos permite que os judeus que tiveram alguma relação com uma propriedade, numa época muito anterior a 1948 retomem suas casas em Jerusalém e expulsem palestinos  que morem nela regularmente.

Mas o que descobri conversando com Soad e seus filhos  naquela fim de tarde,  no crepúsculo de Jerusalém é que os advogados  dos colonos  judeus tentam expulsar os palestinos de suas casas aplicando a lei que se refere às propriedades de antes de 1948 ou falsificado  documentos

São  leis completamente diferentes para judeus e para palestinos muçulmanos e cristãos e que evidenciam claramente um regime de Apartheid imposto desumanamente por Israel.

No exemplo específico dessas  famílias palestinas de  Sheikh Jarrah,  um tribunal inferior este ano apoiou a reclamação dos colonos judeus, uma decisão claramente injusta para os palestinos.

Cabe agora aos juízes da Corte  Superior revogar a decisão e evitar que um novo ato de Apartheid  seja cometido em Jerusalém.

O que você sentiria se  violentos colonos  tomassem a casa da sua  família afirmando que, em 1948, aquela casa foi de um cidadão  judeu, mas  sem nenhuma relação com os  que a estão tomando hoje?

Mesmo diante de tamanha desumanidade, a esperança dos que lutam por paz e justiça permanece viva.

Muitas  muitas mulheres judias, como as  que conheci na ONG BT Selem em Jerusalém, tem lutado para  manter viva a luta pela esperança.

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Não alimentamos o ódio à uma religião inteira, A luta deve ser  contra os que sequestraram as religiões para  promover  mortes,  apartheid  e violência.

Deixo aqui  mensagem de um escritor, um ex extremista judeu que se tornou um artivista pela paz  e que faleceu em 2018: O que para nós é a Guerra da Independência e para vocês é a Nakba – cerca de 750 mil palestinos foram obrigados a deixar suas casas e suas terras durante 70 anos de conflitos, vocês foram impedidos de exercer seu direito natural à independência em seu próprio Estado Nacional livre. (…) Por tudo isso devemos a vocês um pedido de perdão (…) Uri Adverny

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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Expulsão dos Palestinos, O conceito de 'transferência' no pensamento político sionista (1882-1948)
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