Hamas constrói laços internacionais para garantir aval aos resultados eleitorais

Líderes do Hamas Essam Aldalis (à esquerda), Rawhi Mushtaha (centro) e Khalil Al-Hayya (à direita) atravessam a fronteira de Rafah com o Egito, no sul da Faixa de Gaza, em 15 de março de 2021 [Said Khatib/AFP via Getty Images]

O Hamas revelou recentemente ter se reunido com os embaixadores da Rússia, Turquia, Irã e África do Sul no Catar — Nur Muhammad Khulov, Mustafa Goksu, Hamid Reza Dehghani e Faisal Musa, respectivamente — para debater a conjuntura palestina e as eleições deste ano, além dos desafios e riscos presentes. O movimento palestino também solicitou aos embaixadores que garantam o êxito do pleito nacional, ao conceder detalhes das últimas eleições internas do Hamas.

Ismail Haniyeh, chefe do Gabinete Político do Hamas, liderou a delegação do movimento no encontro de 28 de fevereiro. Foi acompanhado por Mousa Abu Marzook, Izzat Al-Risheq, Husam Badran e Maher Obaid. Todos reportaram o atual estado da arena política na Palestina e compartilharam detalhes das eleições legislativas, presidenciais e para o Conselho Nacional, marcadas para os próximos meses.

Al-Risheq declarou ao Monitor do Oriente Médio que a reunião com os embaixadores serviu para informá-los sobre o avanço do processo eleitoral, sobretudo porque Rússia e Turquia são, junto de Egito e Catar, os avalistas do pleito. “Pedimos a eles que exerçam pressão às autoridades israelenses para impedi-las de prejudicar as eleições em Jerusalém ou prender líderes e ativistas do Hamas na Cisjordânia. Estamos em contato com todos os países possíveis sobre a questão”.

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Prosseguiu ao relatar que Haniyeh também enviou cartas a diversos presidentes e encontrou-se com outros embaixadores. “Algumas reuniões foram divulgadas; outras, mantidas em sigilo. Buscamos nos comunicar incessantemente e permanecer abertos ao mundo. Estamos em contato com embaixadores em países onde temos representantes”.

Em contexto relacionado, Haniyeh reuniu-se com Hassan Turan, chefe do Grupo de Fraternidade Palestina do Parlamento da Turquia, além de diversos legisladores, membros de comissões relevantes e oficiais locais, em 20 de março. Haniyeh queria requisitar da Turquia sua influência política para pressionar Israel a interromper suas violações sistemáticas contra os palestinos de Jerusalém.

O gabinete político submeteu ainda uma mensagem ao Emir do Catar Tamim Bin Hamad Al-Thani em 14 de fevereiro, para agradecê-lo pelo papel de Doha em facilitar as eleições. Haniyeh pediu ao governo catariano que monitore o pleito, após uma série de mensagens emitidas no início de janeiro a líderes do Irã, Jordânia, Suíça, África do Sul e ONU, a fim de exortar seu apoio ao processo eleitoral e à unidade nacional palestina. Em 22 de janeiro, Haniyeh conversou por videoconferência com Nikolay Mladenov, Coordenador Especial para o Processo de Paz no Oriente Médio das Nações Unidas. Na ocasião, o líder palestino destacou a necessidade dos resultados eleitorais serem aceitos internacionalmente.

Tais avanços do Hamas são parte de esforços em curso para engajar-se com a comunidade internacional, à qual permanece aberto. Encontros foram realizados mesmo com representantes de países com os quais o movimento não tem qualquer relação formal ou aqueles que certa vez tiveram, mas cortaram tais laços por pressão de Washington e Tel Aviv. Espera-se que o grupo palestino intensifique os contatos diplomáticos conforme aproximam-se as eleições legislativas de maio.

Um dos mais importantes motivos para tanto é evitar repetir o rescaldo das eleições legislativas de 2006, cujo resultado não foi reconhecido, o que levou ao brutal cerco israelense sobre a Faixa de Gaza, desde então. O Hamas busca garantias de todos os países que puder alcançar para que aceitem a resposta das urnas.

Pelo fim do cerca a Gaza [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]

“O Hamas tem relações e contatos com diversos países”, reiterou Hussam Badran. “Eles conversam conosco de modo distinto, conforme as circunstâncias de cada estado, e tais relações não são necessariamente divulgadas”.

A Autoridade Palestina e o partido Fatah costumam expressar receios sobre encontros e contatos do Hamas, por temores de alguma mudança na perspectiva da comunidade internacional sobre o movimento. Preocupam-se sobre a possibilidade de oficiais do Hamas apresentarem posições políticas atraentes o bastante à comunidade internacional para fazê-la reconsiderar boicotes e sanções. Quanto ao Hamas, tais encontros representam uma verdadeira conquista em termos de relações exteriores. A resposta positiva às eleições palestinas por parte de Estados Unidos e União Europeia pode decorrer em um diálogo fundamental com o grupo, caso seja parte do próximo governo em Ramallah.

O movimento islâmico abriu-se ao diálogo com qualquer país e assume toda e qualquer oportunidade de fazê-lo, seja diretamente ou via mediadores. A Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas, costuma ser visitada por representantes europeus que contactam o Hamas de tempos em tempos.

Vale notar que o Escritório de Comunicação e Informações da União Europeia em Jerusalém Oriental declarou à agência de notícias Xinhua, em 16 de janeiro: “A União Europeia aguardará o resultado das eleições e tratará dele conforme os regulamentos de seu trabalho”. A observação foi descrita como “ambígua”.

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O encontro em Doha pode representar a primeira vez que Haniyeh e outros líderes do Hamas conversaram aberta e simultaneamente com embaixadores dos países supracitados. É possível que testemunhamos o início de uma coalizão regional e internacional em apoio ao movimento Hamas, apesar do boicote vigente dos Estados Unidos e contatos de bastidores com representantes europeus.

Ao sediar a reunião, é possível que o Catar esteja tentando melhorar a reputação do Hamas aos olhos da comunidade internacional, como preparativo para sua participação nas eleições iminentes. Contudo, resistem receios de que o Hamas ainda não possui garantias consolidadas o bastante para que os resultados não sejam rejeitados novamente. Trata-se evidentemente de uma questão crucial ao movimento.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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