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Para onde foram as massas árabes?

Manifestantes britânicos reúnem-se em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Londres, em protesto ao chamado “acordo do século” de Donald Trump, em 1° de fevereiro de 2020 [organização]

O Presidente dos Estados Unidos Donald Trump lançou uma enorme bomba com seu “acordo do século”, o qual busca eliminar o restante da Palestina histórica e exterminar completamente a causa palestina. Contra isso, todo os países árabes deveriam se unir e demonstrar repúdio. As massas árabes deveriam ter tomado as ruas em milhões como reação natural à proposta. Nenhum dos casos realmente ocorreu, sequer nos territórios palestinos ocupados da Cisjordânia. Aqueles que de fato saíram às ruas – de certo modo, timidamente – estavam na Jordânia, Argélia e Marrocos.

O que aconteceu com o povo árabe? Para onde foram as massas? Por acaso, seu sentimento em relação à questão central do mundo árabe, a Palestina, desapareceu? Vimos manifestações em massa há anos atrás quando, por exemplo, Ariel Sharon profanou a Mesquita de Al-Aqsa; ou quando Mohammad Al-Durra, de doze anos foi morto; ou quando o Sheikh Ahmed Yassin, Abdel Aziz Al-Rantisi e outros foram assassinados. As massas tomaram as ruas durante os frequentes ataques israelenses contra os palestinos na Faixa de Gaza.

A recente reação reflete a mesma fraqueza das manifestações diante da decisão de Trump em reconhecer Jerusalém como capital “indivisível” do Estado de Israel. Mesmo o próprio presidente americano afirmou na época que esperava maior repúdio dos povos árabes. Estou certa de que tamanha falta de indignação o encorajou a assumir tantas decisões injustas, em favor sempre do movimento sionista. Tais medidas deveriam ter provocado os árabes a se unirem como uma única nação; contudo, demonstrou sua união como algo moribundo. Entre elas, estão inclusos o reconhecimento da anexação dos assentamentos ilegais na Cisjordânia ocupada e das Colinas de Golã, território ocupado da Síria, por Israel e o corte das doações americanas à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA); todas prelúdio do tão fadado acordo.

Ao invés de protestos nas ruas, as massas árabes parecem satisfeitas em declarar seu repúdio nas redes sociais, sem dúvida por serem oprimidas por ditadores que governam com mão de ferro e que não permitirão qualquer tipo de oposição política concreta. Quando o povo tentou tomar em mãos seu próprio destino, durante e após as revoluções da Primavera Árabe, bandeiras palestinas foram estendidas nas praças públicas em solidariedade ao povo palestino.

No Egito, por exemplo, após a revolução, um homem escalou os muros do quarteirão fortificado onde se localiza a Embaixada de Israel até o 12° andar, removeu a bandeira israelense, onde foi simbolicamente queimada; o ato foi aplaudido pelo povo no local. Compare este evento ao destino do jovem que ergueu uma bandeira palestina em uma partida de futebol há alguns meses atrás: preso, aguardando julgamento.

Foi isso que aconteceu ao povo árabe, e por essa mesma razão Israel conspirou contra a Primavera Árabe por meio de seus agentes na região – isto é, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos –, a fim de que líderes nacionais sujeitos ao controle israelense fossem indicados como agentes por procuração para salvaguardar fronteiras. Mahmoud Abbas, presidente palestino responsável pela coordenação de segurança com Israel, admitiu sua própria traição em discurso diante da chamada Liga Árabe. Afirmou ter concedido aos israelenses informações que apenas sonhavam em obter, mas que agora decidiu interromper tais relações e que Israel terá de cuidar de si mesmo. Abbas também declarou crer que os palestinos não precisam de armas e que buscará estabelecer o Estado da Palestina como uma entidade desmilitarizada. É fato que os governantes árabes enxergam Israel como uma apólice de seguro para seu poder, razão pela qual mostram-se tão afoitos em agradá-lo, seja como for, a fim de garantir a permanência no trono.

Portanto, é vergonhoso que Abdel Fattah Al-Burhan, Presidente do Conselho de Transição do Sudão, tenha se encontrado com o Primeiro-Ministro de Israel Benjamin Netanyahu em Uganda, após o anúncio de Trump do infame acordo, para declarar intenções de normalizar as relações com o estado sionista. Por incrível que pareça, Al-Burhan alegou que sua visita a Entebbe poderá beneficiar os palestinos.

Após a viagem de Al-Burham – traição flagrante aos povos árabes e islâmicos – podemos dizer, sem exageros, que todo o Vale do Nilo está agora sob domínio israelense. Esta expansão indireta completa o cerco abrangente a todo o povo palestino, a quem se pede agora que desista de tudo como parte de um documento de rendição mascarado como “plano de paz”.

Entretanto, não vai acontecer. O heróico povo palestino jamais se renderá, jamais desistirá. Os palestinos já deram início a ações individuais, mas esperamos agora que realizem um levante coletivo mobilizado por uma liderança unificada capaz de estremecer a terra sob os pés da hegemonia sionista. Desejamos uma resistência unida e o retorno à luta do passado. A terra histórica da Palestina, do rio ao mar, somente será restaurada por meio de todas as formas legítimas de resistência.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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