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Tiroteio em Gaza demonstra o fracasso das táticas israelenses

Forças de ocupação israelenses [foto de arquivo]

Três soldados da ocupação israelense, incluindo um oficial, foram feridos por um atirador palestino na cidade de Khan Younis, na Faixa de Gaza, na manhã desta quinta-feira (1°). O palestino foi identificado como Hani Abu Salah, morto enquanto os três soldados eram evacuados por um helicóptero em direção a um hospital israelense no deserto do Negev. Os soldados não correram risco de vida.

Segundo as Forças de Defesa de Israel, Abu Salah estava armado com um rifle de ataque AK-47 e algumas granadas de mão. Ele aparentemente agiu por conta própria e não recebeu ordem alguma para executar o atentado de qualquer grupo de resistência em Gaza.

O tiroteio ocorrido pela manhã foi amplamente criticado, com foco nas forças de ocupação israelenses e no Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu. As críticas ocorrem, em especial, devido ao fato do atentado ocorrer apenas um dia depois do fim da maior missão militar extensiva na região desde a ofensiva israelense contra os palestinos de Gaza, em 2014, que durou 51 dias no verão daquele ano e foi intitulada Operação Margem Protetora.

“A missão executada na cidade de Ashkelon, no sul de Israel, próxima à fronteira com a Faixa de Gaza, teve início no domingo…” noticiou o jornal Israel Hayom, “e incluiu investidas contra helicópteros, tropas de combate e novas formas de meios de defesa para combates dentro de túneis de ataque.”

O Tenente-General Aviv Kochavi, Comandante-Chefe do Exército de Israel, concordou com a data estabelecida para o exercício militar assim que assumiu o cargo, em janeiro deste ano. Sua decisão foi baseada nas preocupações crescentes de que o exército não estivesse suficientemente preparado para engajar-se com sucesso em uma guerra contra a resistência palestina na Faixa de Gaza. Tais preocupações aumentaram após a invasão mal-sucedida das Forças Especiais Israelenses sobre o território de Gaza, em novembro de 2018.

Embora os soldados recebam treinamento intensivo para enfrentar a resistência, o incidente de hoje demonstra o quão ineficaz é este treinamento. Também sugere que as táticas israelenses são infrutíferas.

Como de costume, a imprensa israelense noticiou a narrativa do exército de que o atirador palestino infiltrou-se no estado ocupado por meio da cerca oriental em torno de Gaza e que os soldados, a princípio, não cogitaram a possibilidade de ser um “terrorista” armado. Relatos iniciais via rádio militar, no entanto, indicam que o tiroteio ocorreu após a incursão armada de uma Unidade Especial de Israel sobre Gaza; o Exército, contudo, negou esta versão. A declaração oficial alega que Abu Salah atravessou a fronteira nominal para entrar em Israel e então colidiu com as forças israelenses. Segundo fontes da resistência palestina, entretanto, o atirador solitário confrontou os soldados israelenses após estes se infiltrarem na Faixa de Gaza.

“Mesmo se aceitarmos a narrativa oficial israelense,” afirmou Walid Al-Agha, especialista em assuntos israelenses, “o incidente demonstra o fracasso de todo o sistema militar de Israel no que se refere à maneira de lidar com Gaza.” Ele observou que este incidente ocorreu logo após o exercício militar de larga escala, do qual todos os segmentos do exército israelense participaram, com todas as tropas disponíveis posicionadas em torno do território litorâneo por toda a duração do exercício.

Forças israelenses atiram contra palestinos durante a Grande Marcha do Retorno, ao longo da cerca que separa a Faixa de Gaza e Israel, em 15 de fevereiro de 2019 [Ali Jadallah/Agência Anadolu]

“Este episódio é suficiente para demonstrar o fracasso das forças israelenses na abordagem de um único palestino armado com um arma leve,” alegou Hassan Lafi, especialista palestino em assuntos militares israelenses em Gaza. “O atirador palestino colidiu com o primeiro pelotão israelense e feriu três dos soldados. Então, outro soldado avançou e não conseguiu atingí-lo e matá-lo por ao menos uma hora. Isso demonstra o fracasso do exercício de Kochavi.”

Não são somente os palestinos que acreditam que o tiroteio foi um teste para a capacidade de Israel em relação a uma atividade militar em Gaza e em torno da fronteira; tampouco são os únicos a considerar o exercício um enorme fracasso. Ao comentar sobre o incidente, Avigdor Lieberman, ex-Ministro da Defesa de Israel, admitiu que o poder de dissuasão israelense se deteriorou. Lieberman acusou Netanyahu pela inaptidão das forças de ocupação. Yoram Kohen, ex-chefe da agência de segurança doméstica israelense, concordou ao afirmar a uma rádio militar que o fator de influência de Israel está reduzido.

Outros comentaristas foram tão mordazes quanto eles. “Não há necessariamente nada para que o Exército de Israel se vanglorie no que se refere a quaisquer melhorias alcançadas para uma futura guerra em Gaza,” explicou Yossi Yehoshua, correspondente militar do Yedioth Ahronoth, maior jornal em circulação de Israel. “O problema principal não foi resolvido. Caso este seja o segundo fracasso das forças em Golã no intervalo de um mês, isso significa que possivelmente não estão preparados de forma adequada para que se posicionem na fronteira com Gaza.”

Amir Bohbot, repórter veterano sobre assuntos militares para o site de notícias Walla, afirmou que é “inaceitável” que tal incidente ocorra “menos de 24 horas” após a Divisão de Gaza do Exército concluir um exercício de larga escala na região, “executado para justamente avaliar a prontidão do exército para uma guerra em potencial.”

Amir Oren, correspondente sênior, colunista e membro do conselho editorial do jornal Haaretz, concluiu: “Khan Younis é o nome da cidade mais frequentemente negociada. É, portanto, a palavra-chave que pode dar fim aos sonhos do Chefe de Estado [Aviv Kochavi].”

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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