A Mulher de Tantoura

Um desejo não realizado não tem outro santuário senão a lembrança. O romance de Radwa Ashour, The Woman from Tantoura (A Mulher de Tantoura, Hoopoe Fiction, 2019), explora as ramificações da memória e de como sua história é contada. A cronologia, embora importante, possui um papel menor do que as emoções, à medida em que a memória assume sua própria trajetória. “A história segue em frente, mas às vezes não completamente, pois, enquanto avança no tempo, ela mesmo retorna e recorda.”

Ruqayya, protagonista do romance, possuía somente 13 anos de idade quando a aldeia palestina de Tantoura sofreu limpeza étnica pelas forças paramilitares sionistas. Antes da chegada dos refugiados palestinos de Qisarya, Ruqayya havia sido pedida em casamento. Há uma mudança abrupta de um tom celebratório para uma atmosfera de destruição iminente, conforme os refugiados trazem suas histórias de êxodo e notícias dos assentamentos coloniais. À medida que as forças sionistas se aproximam de Tantoura, a Nakba palestina torna-se uma experiência tangível para Ruqayya. Ao fugir da aldeia com sua mãe, ela vê os corpos de seu pai e seus irmãos. Ruqayya torna-se incapaz de falar, por um tempo, devido ao choque, enquanto sua mãe se recusa a reconhecer o fato e inventa uma história na qual seu marido e seus filhos sobreviveram, embora incapazes de retornar de seu exílio autoimposto no Egito.

Como refugiada em Sidon, Líbano, vivendo com a família de seu tio, Ruqayya questiona toda a sua identidade. Ao mesmo tempo em que compreende a dimensão da morte durante a Nakba, ela percebe que o trauma do deslocamento em tão curto período de tempo também a distanciou de seu planos anteriores. Seu casamento com Amin, seu primo, contribui para confundí-la enquanto se adapta, embora questione, ao seu novo papel no mundo. Conforme passa o tempo, e seus três filhos tornam-se adultos, cada qual com sua própria maneira de relacionar-se com a Palestina, a memória de Ruqayya é assombrada por Tantoura e pela identidade de refugiada, a qual ela revisita e traz à tona quando sente necessidade de asseverar suas origens.

Para Ruqayya, o massacre de Tantoura não é a única experiência traumática. Após o casamento, ela deixa Sidon para viver em Beirute com sua família, onde sua vida mais uma vez é dilacerada pelo massacre de Sabra e Chatila.

A consciência e a memória de Ruqayya são vazias da análise rigorosa habitualmente associada com a Palestina. A educação política da protagonista, também uma jornada de autodescoberta, surge mais tarde, quando seus filhos tornam-se adultos e passam a perseguir objetivos e ambições diversas. Também amplia sua noção sempre presente de comunidade, posta à prova quando ela se muda temporariamente para Abu Dhabi, onde vive seu filho Sadiq, e mais tarde para Alexandria, antes de retornar a Sidon.

Como refugiada viajando por diferentes países, a consciência de Ruqayya é sempre assombrada por Tantoura e pelo sonho do retorno. Quando seu filho, Hasan, sugere que ela escreva suas memórias, há um momento marcante no qual ela sente que não pode continuar. Escrever sua própria história a faz sofrer demais, contudo seu filho insiste: “Eu queria que os outros ouvissem sua voz, a voz de Ruqayya, a mulher de Tantoura.”

Ao contar sua história, há um reconhecimento imediato de todos os detalhes que não podem ser revelados, por muitas razões. Aqueles que fogem dos massacres podem contar somente uma parte da narrativa histórica, o resto é composto, peça por peça, gradualmente. O que permanece oculto, e desconhecido, é tão assustador quanto o sonho derradeiro, embora não realizado, dos palestinos retornarem à sua pátria.

Ruqayya descreve sua existência da seguinte forma: “permaneci viva, por acaso.” Seu testemunho sobre a Nakba e atrocidades mais recentes validam essa declaração. Membros da família e amigos foram mortos ou desapareceram; Ruqayya, porém, ainda está viva para narrar o que conhece dos eventos passados, contrastá-los ao seu próprio dilema existencial. Sua vida como esposa e mãe representam trajetórias absolutamente diferentes daquela em que Ruqayya constantemente procura conexões com seu passado, insistindo em reafirmar suas origens e seu status de refugiada, muito para a decepção de Sadiq, que tem uma abordagem diferente entre seu status atual e suas origens como filho de refugiados. Em certa ocasião, ela reflete: “Foram três guerras e um massacre entre dois banquetes.”

Muitas vozes palestinas se perderam durante a Nakba. Ruqayya nos oferece uma representação dessas vozes a qual, com estímulo e oportunidade, poderia contribuir para a construção das narrativas palestinas a partir da Nakba. Sua narrativa é sobre uma busca incessante para se comunicar, e quando estabelece a comunicação, a crise de identidade a envolve outra vez. Esperar atras da cerca, com outros palestinos, para cumprimentar parentes do outro lado, é o mais perto que ela chega das terras nas quais está proibida de entrar. É neste lugar que ela entrega sua relíquia mais querida da Palestina a um membro da família do outro lado.

A memória é dolorosa em parte porque não se realiza e, no caso dos palestinos, uma rede extensiva de cumplicidade frustra os palestinos de seu direito legítimo de retorno. A prosa de Ashour explora esta violação política habilmente, com uma narrativa simples, uma narrativa de memória, experiência bastante comum para todos os palestinos. A terra é colonizada, mas a memória permanece intacta. Sem qualquer saída possível, torna-se uma implosão.

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