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Enquanto a Europa olha para a arte marroquina, a arte marroquina olha para a África

Hoje mais do que nunca, o Marrocos está no centro dos interesses políticos e econômicos. Não surpreende, portanto, que instituições de arte de todo o mundo prestem agora cada vez mais atenção aos artistas marroquinos emergentes. Os profissionais contemporâneos de fato caminham sobre os passos de uma tradição cultural sem fronteiras, ao mesmo tempo em que incorporam medos, esperanças e desejos pelo futuro de todo o país.

Galerias europeias em particular não perdem a oportunidade de oferecer seus espaços a estes artistas. Entre esses, estão os Jovens Artistas Marroquinos, um grupo de jovens talentos descobertos recentemente pela Galeria Sulger-Buel, de Londres, através de sua nova exibição. A mostra tem a intenção de incentivar uma cena artística marroquina jovem e contemporânea, ao exibir a obra de artistas da mesma geração. Trabalhando sob diferentes conceitos e mídias, suas obras são intimamente ligadas ao seu ambiente, o qual é tanto particularmente africano quanto global.

Uma evidência do interesse europeu no Marrocos é a agenda da mostra: será inaugurada em Londres ainda este mês, depois transferida em junho para o Banco alemão KFW-DEG, em Colônia, como parte de seu programa cultural, cujo país homenageado este ano é o Marrocos.

Quanto à descrição “Jovens Artistas Marroquinos”, há uma clara referência a um episódio bastante recente da história da arte. O grupo conhecido como “Young British Artists” (“Jovens Artistas Britânicos”) concedeu um sentido absolutamente novo à expressão moderna “épater le bourgeoisie” (“chocar a burguesia”). No início da década de 1990 – logo quando já não pensávamos mais ser possível impressionar o público de arte – um jovem Damien Hirst exibiu um tubarão inteiro congelado em formol dentro de uma galeria. Intitulada “The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living” (“A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivente”, em tradução livre), a obra agitou o cenário artístico e além dele. Alguns anos depois, Tracey Emin criou “My Bed” (“Minha Cama”), composta por sua cama com objetos de quarto em estado abjeto, com evidências marcantes de atividades sexuais. A obra ganhou atenção midiática, além de muitos prêmios artísticos de prestígio.

Arte marroquina contemporânea

Estariam os jovens artistas marroquinos produzindo comoção semelhante? Não necessariamente. Mais do que isso, suas obras denunciam preocupações prementes, quase sempre relacionadas ao consumismo, enquanto a maioria dos jovens artistas britânicos ascendeu nos limites obscuros entre a arte e o mercado.

Um exemplo a ser descoberto na mostra da Galeria Sulger-Buel é o universo trazido pelo artista Ben Krich. Absurdo, trágico e cômico ao mesmo tempo, é povoado por galinhas sem asas e sem cabeça. Seus desenhos e esculturas são, de fato, uma sátira de uma sociedade que não tem mais a intenção de voar alto, tampouco procura refletir ideias, hoje impulsionada apenas por forças do mercado. Encontramos preocupação semelhante com uma excessiva visão materialista da sociedade na obra de Rachid Ouhnni. Criado na medina de Marraquexe, suas obras são inspiradas pelos materiais opulentos e pela cultura linguística de seu entorno imediato.

Podemos ver também insinuações políticas mais diretas. Madiha Sebbani é curadora e artista multidisciplinar criada em uma família militar. Ela articula uma crítica afiada das noções de autoridade e hierarquia e representa estruturas de poder através do uso do figurino.

Arte marroquina contemporânea

Diante de um espetáculo tão interessante, que põe em destaque a arte contemporânea marroquina, é interessante ver se o interesse pela Europa é recíproco no próprio Marrocos. Surpreendentemente, a intelligentsia do país parece estar determinada a se emancipar de uma visão do mundo da arte centrada no Ocidente, criando seu próprio sistema de valores. Isto é conquistado pelo fortalecimento de sua relação com a África, não com a Europa.

Este processo demonstra-se claramente no primeiro museu de arte contemporânea de Marraquexe: o MACAAL – Museu de Arte Contemporânea Africana Al Maaden. Aberto para os residentes locais em 2016, foi inaugurado oficialmente em fevereiro do ano passado. O empreendimento privado trouxe certo ar fresco e novos atores interessantes para a cena artística local. Com foco em artistas da África e da diáspora, o espaço exemplifica a abertura do país às chamadas “novas geografias da arte contemporânea”.

O museu foi aberto pela mostra “A África não é uma ilha”, exposição coletiva de 40 artistas trabalhando no continente, bem como no contexto mais amplo da cultura africana. O MACAAL tem como objetivo recuperar a voz africana ao Marrocos, de forma livre e neutra, algo aparentemente destituído no momento; contudo, em processo de contrução.

Como ocorre em muitas dessas “novas geografias”, os verdadeiros promotores da arte contemporânea são os colecionadores, os únicos capazes de contrapor políticas governamentais que podem ser restritivas quando (e se) concedem financiamento. Este também é o caso do MACAAL, uma iniciativa de colecionadores de arte marroquinos, em particular, pela dupla Alami Lazraq e Othman Lazraq, pai e filho. O museu abriga a coleção de arte africana contemporânea particular da família, reunida nos últimos 40 anos.

A fórmula vencedora aqui é criar um “museu de escala humana”, coexistindo com uma abrangência internacional e a abertura para que o público global conheça o Marrocos e a África. “Estamos tentando dar voz a artistas jovens, emergentes ou estabelecidos,” disse Othman Lazraq, “para que se orgulhem de suas raízes em seu continente e não no exterior.”

Desta forma, é possível antever um alinhamento entre a proposta do museu e nova geração de artistas marroquinos. É a partir dessa intenção, parece, que um verdadeiro renascimento da arte contemporânea marroquina pode ter início.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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