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Cortes salariais da Autoridade Palestina deixam os funcionários de Gaza sem condições de vida

Funcionários da Autoridade Palestina (AP) em Gaza, que perderam seus salários como parte das medidas punitivas do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, estão enfrentando condições de vida deterioradas e dívidas crescentes.
Mulher palestina prepara comida para os filhos em sua casa em um bairro pobre de al-Zaytoon, na Cidade de Gaza, 17 de setembro de 2013 [Ezz Zanoun/Apaimages]

Raafat Al-Nedar acordou e saiu para se juntar às longas filas no caixa eletrônico na cidade de Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza, a fim de retirar seu salário mensal.

Esse homem de 47 anos já havia gastado o dinheiro no pagamento de um empréstimo que ele havia feito, contas de eletricidade, água e telefone, taxas escolares para seu filho mais velho e contas médicas para sua filha mais nova, que está sendo tratada de leucemia.

Al-Nedar, oficial de segurança, não foi pago pela Autoridade Palestina e falou ao MEMO sobre os “pesadelos” que vem enfrentando como resultado da divisão política interna entre as duas principais facções palestinas nos territórios ocupados.

A divisão resultou do “caos” criado com a derrota retumbante do Fatah para o Hamas nas eleições de 2006. Apesar de ganhar o maior número de votos, o Hamas não conseguiu assumir as instituições na Cisjordânia ocupada, já que a Fatah não abriu mão do controle.

No entanto, em Gaza, a situação era diferente.

Quando o Hamas assumiu o poder na faixa, agora sitiada, a AP na Cisjordânia convocou seus funcionários em Gaza para entrar em greve como uma forma de desobediência civil. Aqueles que se recusaram foram demitidos e seus salários suspensos. Al-Nedar cumpriu a solicitação da AP e não retornou ao trabalho como forma de protesto.

Desde 2007, a AP suspendeu os salários de vários funcionários e no ano passado submeteu milhares à aposentadoria compulsória, acusando-os de lealdade ao Hamas.

No início deste ano, a AP reduziu os salários de centenas de famílias de mortos e prisioneiros em Gaza, bem como centenas de seus funcionários que são leais ao líder demitido do Fatah, Mohammad Dahlan.

Al-Neder ficou chocado quando a equipe de uma clínica do governo pediu que ele pagasse pelo exame médico de sua filha, Dana, em Jabaliya. O tratamento sempre fora coberto pelo seu seguro de saúde.

“Quando perguntei sobre isso”, disse ele, “me disseram que todos os serviços oferecidos aos funcionários do governo estavam suspensos”.

“Foi chocante para mim. Eu não tenho salário e agora tenho que pagar por um empréstimo bancário, cuidar de um bebê, que está perdendo a visão, dos filhos estudantes do ensino médio e uma família de oito pessoas.”

Rami Fares, supervisor de educação do Ministério da Educação em Gaza e porta-voz dos funcionários que perderam seus salários, disse que o caso de Al-Neder é semelhante ao de centenas de palestinos em Gaza “que sofrem com a vontade de nosso presidente.”

O palestino Rami Fares vive em Gaza e teve seu salário e benefícios cortados como resultado de medidas punitivas tomadas pela Autoridade Palestina na Cisjordânia.

Fares disse que dezenas de funcionários, cujos salários foram suspensos e que perderam o acesso a serviços públicos, venceram processos judiciais contra a ação da AP, mas a autoridade da Fatah não restabeleceu seus pagamentos.

“Tragédia completa”

Dentre estes funcionários está Yasser Abu-Salim, de 51 anos, envolvido nos movimentos de desobediência civil em Gaza, alinhada com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. Isso, no entanto, não foi suficiente para provar sua lealdade.

“Eu tenho duas filhas adolescentes com deficiência e elas ficam deitadas de costas quase o tempo todo”, disse Abu-Salim à MEMO. “Elas precisam de pelo menos US$ 1.200 para tratamento e gastos com saúde a cada mês”, disse ele, observando que o custo do tratamento é maior do que o salário que ele recebia da AP.

Abu-Salim disse que o seguro de saúde “preencheu a diferença” entre seu salário e as despesas mensais para tratamento. “Mas, desde que o salário foi suspenso, tenho vivido em uma tragédia completa”, disse ele.

Os funcionários que cumpriram as ordens de Abbas e entraram em greve agora acreditam que o chefe da AP os está ignorando e já teria dissolvido seus direitos.

“Minha mensagem para Abbas é: nós o escolhemos para ser nosso presidente, então por que você nos pune? Se somos capazes de suportar o seu castigo, qual é a culpa dos nossos filhos doentes? Por que você os impede de receber tratamento?”, perguntou Al-Nedar.

Médicos em Gaza disseram que a filha de Al-Nedar “deve ser transferida para a Cisjordânia ou hospitais israelenses para receber tratamentos inexistentes nos hospitais de Gaza”, mas agentes de segurança da AP impediram seu pai de cruzar Erez (Beit Hanoun) posto de controle entre a Gaza e Israel.

Ele foi informado de que o motivo era “lealdade a Mohamad Dahlan, que é o rival de Abbas e atual aliado do Hamas.”

“Se você [Abbas] nos impedir de desfrutar de nossos direitos e receber nossos salários, isso prova que não nos serve, mas aos nossos inimigos, que gostam de infligir sofrimento a nós e a nossos filhos,” concluiu Al-Nedar.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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