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A vida e obra da artista islâmica palestina Laila Shawa

Artista palestina Laila Shawa

Um grupo de mulheres usando niqabs de cores diferentes carrega sorvetes tão coloridos quanto seus véus. Seus olhos estão fechados como se estivessem prestes a saborear os diferentes sabores. Claro, elas não podem, porque suas bocas estão cobertas por tecido. Essa imagem pintada é uma declaração poderosa não apenas sobre as mulheres no Oriente Médio, mas também sobre o desejo de ocidentalização por parte da sociedade do Oriente Médio. Ambos estão englobados em “Impossible Dream” (“Sonho Impossível”), da artista Laila Shawa, nascida em Gaza.

Nem todos os artistas com vidas agitadas têm uma saída com similares recursos atraentes. No entanto, Shawa foi capaz de casar arte e vida em um corpo original e único de seu trabalho. Ao repudiar qualquer tipo de rótulo para si mesma, a artista dedicou sua carreira a expressar as realidades complexas da vida do povo palestino, dando voz às mulheres da região. Ao fazê-lo, foi capaz de criar uma arte que é política sem ser simplesmente retórica; pop sem ser superficial. Ela mergulhou na comunidade artística, bem como no ativismo social. Está intimamente sintonizada com o espírito dos tempos, além de ser atemporal. Não é de admirar, portanto, que novas gerações de artistas olhem para ela como um ponto de referência.

Nascida em Gaza em 1940, Laila tinha apenas 8 anos quando o Estado de Israel foi fundado em sua terra natal, a Palestina. Descendente de uma das mais antigas famílias proprietárias de terras palestinas, ela vem de uma longa linha de mulheres fortes e intelectuais. Uma grande influência foi seu pai, Rashad Al-Shawa, ativista e prefeito de Gaza de 1971 a 1982. A atitude revolucionária à qual ela foi exposta desde jovem permanece com a artista até hoje.

A juventude de Laila Shawa foi cosmopolitana. Ela frequentou o colégio interno e a universidade no Cairo, depois viajou à Itália para frequentar a Academia de Artes de Roma. Estava lá nos anos sessenta, quando a atmosfera na Cidade Eterna era icônica e bastante glamourosa, com artistas-estrelas da Piazza del Popolo saindo nos Cafés Rosati e Canova ao lado dos Rolling Stones ou Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Isso talvez tenha proporcionado um contraste impactante para a artista, dado o que estava acontecendo em seu próprio país na época.

Obra representa mulheres com niqabs coloridos segurando sorvetes, de autoria
da artista palestina Laila Shawa.

Este choque de mundos muito diferentes ainda reverbera em todo o seu estilo artístico, definido como “Islamo-Pop” pelos críticos. Sua abordagem não tem como deixar de ser pós-moderna, olhando igualmente para as influências culturais esparsas, da cultura popular e erudita. No entanto, esse encontro é impulsionado por um forte senso de propósito que muitos artistas pós-modernistas não têm. É a reflexão sócio-política abordada com uma dose saudável de ironia e humor. A imagem dessas mulheres muçulmanas tentando provar esses sorvetes é emblemática nesse sentido.

De fato, se há algo que Shawa absorveu de sua existência peripatética, é a percepção de que problemas complexos dão origem a múltiplas explicações, que costumam ser mutuamente exclusivas. Porém, ela considera que artistas tenham um ponto de vista privilegiado em relação à vida. Ela mesma tenta considerar todos os lados de qualquer questão, para encontrar algum tipo de perspectiva expandida ao abordar temas sócio-políticos. Através de sua arte multimídia, ela estimula os espectadores a desenvolverem empatia e afastarem-se de preconceitos e estereótipos.

Um exemplo dessa forma de trabalhar é o “Walls of Gaza III, Fashionista Terorrista” (“Muralhas de Gaza III, Fashionista Terrorista”), obra de 2010, uma serigrafia originária de suas próprias fotografias. A imagem mostra uma pessoa vestindo um Keffiyeh e um suéter decorado com um emblema de Nova Iorque em cristal Swarovski. O Keffiyeh representado na imagem é um símbolo de resistência na Palestina, hoje considerado uma expressão da moda por pessoas no Ocidente. Brincando com o kitsch, o divertido e o irônico, a artista mostra como as imagens são continuamente instrumentalizadas, interpretadas e re-contextualizadas através da mídia. O trabalho também reflete a imaginação popular de homens ou mulheres palestinos e como as pessoas são classificadas de acordo com o lado de quem estão.

Obra da artista palestina Laila Shawa

É a combinação do estilo da Pop Art com um conteúdo altamente político que torna sua obra artisticamente atraente e chocante ao mesmo tempo. Outro trabalho onde isso surge claramente é “The other side of paradise” (“O outro lado do paraíso”), com manequins sem cabeça, sem braços e sem pés, pintados em cores ousadas e adornados com pedras preciosas. Um olhar mais atento revela correntes e cintos de munições e dinamite nos torsos. Nós vemos em que consiste o outro lado do paraíso em Gaza.

Sabemos o papel que o grafite desempenhou durante o apagão da mídia imposto por Israel durante a primeira Intifada Palestina (Revolta de 1987-1993). Estando intimamente sintonizada com todas as diferentes expressões da época, Shawa criou um dos seus corpos de trabalho mais impressionantes, inspirado precisamente pelos grafites. Em “Trapped I-III” (“Capturada I-III”), por exemplo, palavras em árabe escondem uma mulher gritando ao fundo. As mensagens passaram de comunicação pessoal a slogans políticos e apelos por greves. A série “Trapped” (“Capturada”) expressa a necessidade da comunicação humana, enquanto registra um momento crucial na história da Palestina.

Representando a união da ética e da estética, ao longo dos anos, a artista não só esteve presente em grandes feiras de arte e foi exposta em grandes galerias, mas também esteve constantemente envolvida em eventos na região. Isso a levou de seu posto inicial de supervisão no ensino de artes e ofícios em campos de refugiados da UNRWA para aquilo que ela considera seu maior projeto: o Centro Cultural Rashad Shawa, um centro polivalente de arte e cultura com o nome de seu pai, cuja construção começou logo quando Laila se mudou para Gaza, após um período em Beirute. Infelizmente, ao longo dos anos, o centro foi apropriado por Arafat e bombardeado pelos israelenses; hoje é controlado pelo Hamas. No entanto, a artista não perdeu a esperança de que um dia seja reativado.

A artista Laila Shawa e sua obra

Essa esperança, esse compromisso vitalício com arte, cultura e engajamento político, não podem deixar de surgir a partir de uma crença no poder de transformação da arte e cultura. Em cada obra de Laila Shawa, podemos ver claramente essa forte fé na capacidade da humanidade de refletir sobre si mesma e, quando estiver pronta, corrigir seu curso.

Os melhores artistas são aqueles que fazem você descobrir algo sobre si mesmo que antes não conhecia; como se alguém estivesse apontando um aplicativo que você não sabia que estava em seu celular o tempo todo, e isso de alguma forma revoluciona sua vida. Laila Shawa está lá no topo, entre os melhores deles.

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