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Os palestinos de 1948: batalha de resistência, identidade e papel nacional

O Dia da Nakba em 1948 - Cartoon [Carlos Latuff/Middle East Monitor]

A aldeia de Al-Araqeeb talvez seja a síntese da história da insistência de Israel em expulsar o povo palestino e da insistência palestina em se entrincheirar na terra como ato de firmeza contra a ocupação. Por cento e quarenta vezes, os israelenses destruíram a aldeia localizada na região de Negev e 140 vezes os palestinos a reconstruíram.

Setenta anos atrás, durante a guerra de 1948, os sionistas ocuparam 77% da Palestina, destruíram pelo menos 413 vilas e cidades palestinas (estimadas por Salman Abu Sitta em 530), deslocaram cerca de 800.000 palestinos, de modo que apenas 156.000 permaneceram nos territórios ocupados naquele ano (oficialmente designados como Israel). Dessa forma, eles foram reduzidos a uma minoria vulnerável em sua própria terra. Por 18 anos, eles estiveram sob domínio militar e leis de emergência. Suas terras foram confiscadas, deixando apenas quatro por cento nas mãos dos palestinos de 1948.

Até agora, os “palestinos de 1948” mantiveram sua margem demográfica de 17%, totalizando cerca de 1,5 milhão de pessoas (fora os palestinos de Jerusalém Oriental). Isto, apesar do fato de que o projeto sionista trouxe cerca de 3,26 milhões de judeus nos últimos 70 anos (1948–2018); contudo, o crescimento natural dos palestinos de 1948 manteve a proporção.

Os palestinos de 1948 tiveram sucesso em sua batalha de resistência por suas terras, sem se deixarem deter pelas medidas israelenses que os tratavam como “estranhos” em seu país e como cidadãos, dando aos judeus tratamento preferencial e outros benefícios. Medidas repressivas israelenses cercearam direitos de acomodação, habitação, construção e uso de serviços pelos palestinos, além de formas de expressar sua identidade cultural e sua filiação palestina, árabe e islâmica. Quanto às cidades e aldeias árabes, elas ficaram confinadas em áreas estreitas, não sendo permitidas novas aldeias ou acampamentos, enquanto que mais de 700 cidades, vilas e assentamentos israelenses foram construídos nos territórios de 1948.

Israel destrói a aldeia de Al-Araqeeb – cartum
[Sabaaneh/Middle East Monitor]

Por outro lado, ainda existem 46 aldeias árabes no Negev (Naqab), habitadas por 137.000 palestinos, considerados pela ocupação israelense como “não reconhecidos”. Essa categoria significa que são privados de serviços básicos e proibidos de construir estruturas, sujeitas a demolição e remoção. Por exemplo, além de Al-Araqeeb, os israelenses destruíram as aldeias de Jaraba, Abdeh, Abu Al-Salb, Abu Talul e Qarnub.

Consequentemente, os palestinos de 1948 foram obrigados a construir sem permissão. Por essa razão, estima-se que 50 a 80 mil casas estejam sujeitas à demolição. É uma taxa de um para cada sete lares palestinos (incluindo o Negev).

Nos últimos anos, as sistemáticas políticas israelenses que perpetuam a falsa identidade da terra e do povo se tornaram cada vez mais direitistas e racistas. Isto emergiu flagrantemente quando o Knesset aprovou a Lei do Estado-Nação Judaico no verão de 2018, que determinou Israel como estado-nação exclusivo do “povo judeu”; estabeleceu o direito à autodeterminação do Estado de Israel para o povo judeu; e legitimou o desenvolvimento da colonização judaica como um “valor nacional”, de modo que as ações do governo sejam destinadas a encorajá-la, promovê-la e fortalecê-la. Em contraste, reduziu a condição do árabe de uma língua oficial para uma dialeto de mérito, aumentando os riscos e desafios enfrentados pelos palestinos de 1948.

A batalha da identidade

Em pleno ambiente de ocupação, o governo israelense busca perpetuar uma identidade judaica em trajes “seculares” e o racismo sionista em um traje “democrático”. Tenta fragmentar a sociedade palestina em identidades sectárias ou sociais, separando os drusos dos outros, preferindo os muçulmanos aos cristãos, e faz o mesmo com os beduínos. Isso aconteceu entre os drusos (cerca de 140.000), de tal forma que a grande maioria dos seus votos são para os partidos israelenses e a maioria de sua juventude se alista no exército de Israel. No entanto, há uma crescente maioria árabe que sente fortemente a sua identidade palestina, e sua filiação árabe e islâmica, e conseguiu frustrar as tentativas de fragmentação de Israel. Eles acreditam na narrativa palestina contra a narrativa israelense e sionista. É um fato que surgiu fortemente nos anos 1950, com a fundação do Harakat Abnaa Al-Balad (Movimento dos Filhos do País), e continuou com os movimentos islâmicos, nacionalistas e nacionais.

No entanto, expressar essa identidade acarreta dificuldades, como a necessidade de equilibrar noção de pertencimento e instituições nacionais palestinas com um passaporte ou “nacionalidade” israelense, e continuar vivendo sob o teto ou a espada da “lei” israelense. Como lidar com a dicotomia entre a necessidade de satisfazer as demandas da vida, como habitação, trabalho, estudo, saúde e outras atividades do cotidiano… e o desligamento do projeto sionista e de suas ferramentas de dominação? Como combinar a necessidade de expressar as posições e demandas políticas dos palestinos de 1948, sem cair na “legitimação” do sistema político israelense, adornando sua fachada com a decoração “democrática” que promove seu projeto agressivo de assentamento e deslocamento?

O papel nacional

Com base no acima exposto, os palestinos de 1948 expressaram seu papel nacional de muitas formas. A maioria dos movimentos confirmou que eles pertencem ao povo palestino, apoiam o Projeto Nacional Palestino, confiam que a Organização de Libertação da Palestina (OLP) como o denominador comum a todos os palestinos, apoiam a resistência palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e, sobretudo, a fundação de um estado palestino. Eles também participaram no apoio a atividades culturais e patrimoniais que preservam a identidade palestina e trabalharam com as municipalidades para servir o povo palestino. No entanto, diferiram em sua participação na vida política de Israel; alguns dos grandes movimentos o fizeram para proteger e servir à “minoria” árabe, usando o que o sistema político oferece e, às vezes, tentando mais. Esses movimentos defendiam slogans de completa igualdade e “um estado para todos os seus cidadãos”, entre outros. Enquanto isso, uma grande tendência, liderada pelo Movimento Islâmico (no norte da Palestina), preferiu boicotar as eleições do Knesset, mantendo-se ativa em outros campos. Dessa forma, manteve um papel notável nos serviços municipais, preservando a identidade nacional e o dawah islâmico. Uma de suas realizações mais proeminentes foi a preservação de Jerusalém e dos locais sagrados, onde seus membros, juntamente com seus irmãos do Movimento Islâmico (no sul), desempenharam um papel importante no cuidado e manutenção da mesquita de Al-Aqsa, permanecendo firmes e unidos para protegê-la (murabatah) e organizando comboios para transportar os fiéis até a mesquita. Lutaram também para preservar o resto dos locais sagrados na Palestina, procuraram readquirir as reservas islâmicas e manter as mesquitas, cemitérios e outros.

Os palestinos de 1948 também participaram das ações relacionadas à Intifada. Eles organizaram o Dia da Terra em 30 de março de 1976, tiveram um papel fundamental no início da Intifada de Al-Aqsa no final de setembro de 2000, e também na Intifada de Jerusalém de 2015–2017. No entanto, o movimento, em geral, preferiu não se envolver em confrontos armados com os israelenses, devido às circunstâncias especiais dos palestinos de 1948. Eles desempenharam um papel vital – “como um pulmão” – para seus irmãos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, oferecendo apoio, assistência, serviços sociais e humanitários, bem como apoio político e de mídia. Entretanto, apesar dessa conjuntura, havia ainda iniciativas de muitos jovens palestinos em 1948 de trabalhar na resistência e no apoio logístico da resistência armada. Um dos últimos exemplos foi o dos Três “Jabarin”, operação de resistência executada na Mesquita Al-Aqsa, no verão de 2017.

Uma terceira Intifada é possível? – cartum [Carlos Latuff/Middle East Monitor]

Eleições

As eleições israelenses serão realizadas em abril, em uma atmosfera na qual o projeto sionista se tornou cada vez mais racista e extremista. Durante os últimos anos, muitas leis e medidas racistas foram emitidas. Além disso, o Knesset aprovou a Lei do Estado-Nação Judaico. Consequentemente, as esperanças de muitos palestinos de 1948 foram frustradas, pois esperavam que sua participação política produzisse resultados que valessem o preço a ser pago por ela.

Nas últimas eleições, a Lista Conjunta dos Palestinos Árabes ganhou 13 cadeiras, o que foi considerado uma grande conquista para a unificação do trabalho político dos palestinos de 1948. Muitas personalidades políticas competentes distinguiram-se, porém, não conseguiram escapar de serem perseguidas e cerceadas pelos israelenses, em meio a tentativas de isolamento e difamação.

Nestas eleições, duas coligações árabes juntam-se à disputa e espera-se que ganhem 12 assentos coletivamente, considerando que muitos dos palestinos de 1948 devem boicotar as eleições. Caso participem, o número de assentos deverá aumentar para cerca de 20, um aumento que não afeta o sistema político israelense, onde o Knesset tem 120 assentos, debate ainda presente entre os palestinos. Em geral, e à luz da experiência histórica, do preço político e do aumento do extremismo religioso e racista na sociedade israelense, a grande maioria dos palestino demonstra-se frustrada com qualquer possibilidade de se beneficiar do Knesset como forma de influência política.

Este artigo foi originalmente publicado no TRT Arabic

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Middle East Monitor.

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